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Era notícia a 19 de janeiro de 1965



Situação dos emigrantes portugueses em França

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A edição de 19 de janeiro de 1965 do jornal vespertino português Diário Popular insere um pungente artigo do seu correspondente em França, José Augusto, relatando o sofrimento dos emigrantes naquele país que se sacrificam para poupar e sustentar a família que deixaram na sua terra, vivendo em condições precárias.

Para aqueles portugueses cerveja já é «bierre» e as férias são designadas por «vacanças».

É assim em Champigny, em Nanterre ou em Aubervilliers, as três capitais dos trabalhadores portugueses em França, assim como o é nos 35 bairros de lata de Paris.

Contando com uma média de 48 horas de trabalho por semana no inverno e 54 no verão, o trabalhador português pode obter um mínimo salarial na ordem dos 800 francos. Convertido em escudos, parece ser uma pequena fortuna; no entanto, a realidade é bem diferente: para poder mandar dinheiro para a terra, o trabalhador tem de apertar o cinto e laborar ainda mais, come «mal e porcamente» para o esforço que despende e vive em «pocilgas» indignas que lhe custam muito dinheiro.

Fonte: Diário Popular nº 7998, de 19-01-1965, 23º ano de publicação, pp. 1 e 7

Embora este artigo defina, com objetividade, a vida dos emigrantes portugueses em França, dever-se-á referenciar que, na altura, os grandes centros urbanos portugueses também possuíam bairros de lata cuja população era, em parte, constituída por migrantes que abandonavam as suas aldeias para obter um trabalho melhor remunerado na cidade.

Eles, também, viviam em autênticas «pocilgas» e comiam «mal e porcamente», utilizando as duras palavras do articulista do Diário Popular. Contudo, nenhum artigo dos jornais controlados pelo governo referenciava este facto.

Poder-se-á conjurar que a razão principal que levou a censura prévia a autorizar a publicação desta peça jornalística foi a tentativa de desincentivar a ida clandestina de jovens portugueses para França, local privilegiado de todos os que tentavam fugir ao cumprimento do serviço militar nas colónias.

Com a introdução da Democracia e a adesão à União Europeia, a vida dos cidadãos portugueses melhorou substancialmente. Continua a haver emigração, especialmente para o Reino Unido, mas a maioria das pessoas que deixa Portugal para trabalhar no estrangeiro é detentora de um curso superior e/ou é altamente qualificada.

Atualmente, Portugal recebe, no seu seio, imigrantes oriundos de inúmeros países, nomeadamente brasileiros, asiáticos e cidadãos do leste europeu. Considerando que a maioria destes trabalha honestamente, contribuindo, com o seu esforço, para o desenvolvimento do País, é a nossa vez de lhes dar condições de vida melhores do que aquelas que eram proporcionadas aos emigrantes portugueses nos anos 60.

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As fotos que acompanham este artigo foram captadas por Gérald Bloncourt.






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