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UM AMOR INESQUECÍVEL

Ela só amou uma vez na vida, mas o seu sonho de felicidade foi muito efémero


Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS

Antes de apagar a luz da mesa de cabeceira, mais uma vez Joana olha para a velha fotografia já amarelecida pelo tempo, onde é ainda possível destrinçar a imagem de um homem com um largo sorriso no rosto.

– Meu amor – diz ela baixinho – quem me dera que estivesses ao pé de mim!

Volta-se, com dificuldade, para o outro lado da cama e encolhe as pernas, tentando colocá-las numa posição que lhe atenue as dores próprias da sua já avançada idade.

Fecha os olhos e tem a sensação de ver projetada numa larga tela a sua longa vida.

Nunca chegou a conhecer o pai, pois este havia falecido antes dela nascer.

As recordações que tem da mãe apresentam-se já um pouco difusas, mas permanece para sempre guardada no seu coração a última conversa que teve com ela, num momento em que se encontrava muito triste.

– Porque choras, Joaninha? – pergunta a mãe, erguendo-a ao colo.

– Gostava tanto de ser bonita! – responde a filha, com as lágrimas escorrendo pelo rosto.

– Mas tu és muito bonita!

– Não sou nada! As outras meninas dizem que eu sou feia!

– Elas dizem isso porque são más. Tu tens uns olhos lindos e um sorriso de princesa!

– Tenho?

– Tens sim!

Foi a última vez que falou com ela. No dia seguinte, a tia Leonor levou-a para casa das suas primas. Só mais tarde a informaram da cruel realidade:

– A tua mãezinha já não está entre nós. Um anjo levou-a para o Céu!

Nunca se pode queixar do tratamento que lhe foi dado pela tia, pois esta nunca fez distinção entre ela e as suas filhas, procurando que todas tivessem uma esmerada educação.

Sempre se deu bem com as primas, embora, na adolescência, ficasse triste por estas serem muito pretendidas pelos rapazes do bairro, enquanto ela passava completamente despercebida.

As primas casaram-se ainda jovens e foram viver para casas próprias. Joana continuou a residir com a tia, tendo sido a única a entrar para a Universidade.

No Curso de Economia conhece muitos rapazes, mas nenhum deles mostrou grande interesse em compartilhar com ela mais do que simples seções de estudo em grupo.

Quando termina a sua formação superior, emprega-se numa instituição bancária e compra a casa onde ainda hoje reside.

Com uma situação financeira estabilizada, apareceram-lhe alguns pretendentes, mas Joana teve o bom senso de se aperceber que a maioria deles apenas pretendia ter encontros íntimos na sua casa ou viver à custa do bom ordenado que ela auferia.

Os anos foram passando e já interiorizara que nunca viria a encontrar alguém com quem encetasse um relacionamento baseado num verdadeiro amor recíproco.

Várias amigas da sua idade, ainda solteiras por opção, costumavam sair aos fins-de-semana com ela, mais por esta ter carro, que propriamente por amizade sincera.

Uma saída estava programada para aquela noite: um jantar num restaurante-bar com largas janelas voltadas para a enseada.

Joana, acompanhada de duas amigas, estaciona o carro no parque e desce, agarrada ao corrimão, a íngreme ladeira que conduz ao restaurante. Assim que passa a porta de entrada, depara com uma vasta sala semiobscurecida harmoniosamente dotada de mesas cobertas com imaculadas toalhas brancas decoradas com arranjos florais, sobressaindo, em cada uma delas, a trémula luz de uma vela. A um canto, um pianista, movimentando com ligeireza as mãos, toca uma conhecida música de amor.

Assim que se sentam, reparam em três homens aparentando ter cerca de quarenta anos, que não desviam o olhar delas.

Um pequeno espaço, junto ao piano, começa a encher-se de casais apaixonados, dançando enlaçados ao sabor da música.

Com um sorriso estampado no rosto, dois dos três homens que as observavam, levantam-se e convidam as amigas de Joana para dançar. Estas aceitam ir com eles, deixando Joana sozinha.

Decorrem vários minutos até o terceiro elemento do grupo masculino se dirigir à mesa da Joana, pedindo licença para se sentar.

– Boa noite! Sou o Manuel Mascarenhas. Como se chama?

– Sou a Joana – responde esta com alguma hesitação.

– Vivo no interior, mas venho muitas vezes ao litoral. Sou dono de uma propriedade agrícola. E a menina?

– Sou economista – responde esta, com timidez.

– Deve ser um trabalho muito interessante – retorque o Manuel.

Normalmente, Joana não costumava dar muita conversa a desconhecidos, mas simpatizou, de imediato, com a figura charmosa de Manuel Mascarenhas que, com a sua estatura alta e a tez queimada pelo sol, parecia olhá-la com alguma ternura.

À saída do restaurante, as duas amigas de Joana aceitam um convite formulado pelos três homens para irem a um dancing da zona, mas Joana declina a oferta, acabando por regressar a casa sozinha.

Na segunda-feira seguinte, as amigas de Joana contam-lhe que o Manuel Mascarenhas insistiu muito em saber onde trabalhava a amiga delas e estas, talvez já tocadas pela bebida, acabaram por lhe dizer.

Naquela tarde, Joana recebe um telefonema do Mascarenhas, convidando-a para tomar um cálice de vinho do Porto à saída do emprego. Esteve para recusar, mas, como sentira uma certa simpatia por ele, acaba por aceitar.

Quando Joana sai do emprego, repara, de imediato, na cativante figura de Manuel que aparentava aguardá-la com toda a serenidade. Apresentava-se elegantemente vestido, ostentando no rosto um luminoso sorriso. Como fora possível – pensa Joana – que um homem assim com uma aparência tão distinta e esbelta se tivesse interessado por ela, a ponto de a convidar para saírem juntos.

Beijam-se respeitosamente na face e Manuel oferece-lhe um ramo de flores e uma caixa de bombons.

Joana fica surpreendida com este presente. Considera-o um pouco exagerado para um primeiro encontro a sós, mas, no seu íntimo, acha que este teve um gesto amoroso.

Após um breve percurso a pé, sentam-se na esplanada de um bar situado em frente a um jardim com sublimes vistas sobre a cidade.

Conversam amenamente durante duas horas. Joana fica encantada com o diálogo afetuoso que Manuel com ela estabelece, permitindo que este acaricie suavemente a sua mão.

À saída, Manuel Mascarenhas sugere acompanhá-la a casa, mas Joana recusa, pois nunca ali recebera nenhum homem.

Mascarenhas disse que compreendia a sua posição, embora não conseguisse esconder alguma contrariedade.

Combinam aparecer, na noite de sexta-feira seguinte, num conhecido restaurante do centro da cidade.

Muitos outros encontros se seguiram. Joana não conseguia esconder perante as suas amigas a alegria que este relacionamento trouxera à sua vida.

Pelo seu comportamento, o pretendente aparentava ser um autêntico cavalheiro, embora nunca deixasse de insistir em ter encontros a sós com ela, situação que esta sempre evitou.

Três meses se passam. Joana resolve receber em sua casa o Manuel. Diz-lhe, porém, que não estará sozinha. Será um convívio com mais pessoas.

Finda a festa, todos vão saindo, mas o seu pretendente não aparenta querer abandonar o local.

Acabam por ficar sozinhos.

Naquela noite, Joana entrega-se nos seus braços, sentindo uma felicidade que até então nunca experimentara.

De manhã, ao acordar, Manuel já não se encontrava ao seu lado na cama.

Permanece largas horas junto ao telefone aguardando uma chamada que explicasse os motivos da súbita partida.

No dia seguinte, fica até mais tarde no emprego, sempre na esperança de ser contactada pelo Manuel.

Porém, nunca mais teve notícias dele.

Foi o único homem a quem se entregou durante a vida. O único que amou! E dele, apenas lhe resta uma envelhecida fotografia e uma noite de felicidade para recordar eternamente.

– Meu amor – repete ela baixinho – quem me dera que estivesses ao pé de mim!

© Jorge Francisco Martins de Freitas, 28-05-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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