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FRAGMENTOS DE UMA VIDA RURAL

Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS



A noite já tinha declinado quando Manuel Silva acaba de arrumar os últimos utensílios da lavoura no espaçoso armazém da Herdade Fidalgo Formoso, onde trabalhava havia vários anos.

Inicialmente, este camponês era apenas um dos muitos trabalhadores vocacionados para todo o serviço que o fidalgo Luís de Lacerda mantinha na propriedade herdada do seu pai; porém, em breve, ascende a capataz, não só devido à sua honestidade, mas sobretudo por saber ler e escrever, competência rara nos meios rurais do fim do século XIX.

Manuel Silva havia aprendido a contar e a juntar as primeiras letras durante o tempo em que cumprira o serviço militar, em Lisboa. Quando voltou para a sua terra natal, ainda não completara a aprendizagem; todavia, sempre que lhe chegava às mãos um jornal, por muito antigo que este fosse, aproveitava-o para aperfeiçoar a leitura.

Fazia parte das suas funções de capataz ir à vila adquirir, para o patrão, tudo aquilo que a terra não produzia, como, por exemplo, o saboroso peixe que era vendido no mercado. Quando regressava à propriedade, ambos se alimentavam graças a essa compra, embora de forma distinta: o fidalgo, rico, mas analfabeto, enchia a barriga com um sublime e apetitoso manjar; o capataz, pobre, porém alfabetizado, nutria novos conhecimentos através da leitura do jornal onde o peixe viera embrulhado.

Desde sempre, Manuel Silva ambicionara ser dono de uma parcela de terreno onde pudesse cultivar os seus próprios produtos; contudo, esse intuito apresentava-se bastante difícil, dado auferir uma modesta jorna. Só conseguiria alcançar esse objetivo com uma vida austera, pautada por muitos sacrifícios, que incluíam a supressão de vícios que muitos homens da altura dificilmente eliminavam, como as frequentes visitas ao taberneiro local.

Para poupar dinheiro, já havia abandonado a ideia de constituir família, decisão que muito havia afligido Maria de Jesus, uma formosa jovem da região, que por ele sentia grande afeto.

Os anos foram passando e, aos poucos, o capataz, que já recebia uma jorna mais elevada, foi aumentando as suas poupanças. No entanto, os terrenos situados em planícies – os melhores para o cultivo – eram ainda para ele uma miragem, pois, quem os tinha, pretendia muito dinheiro por eles.

Um dia, surge-lhe a oportunidade de comprar um terreno mais em conta, embora este ficasse longe da estrada principal, apenas acessível por um carreiro de terra batida onde mal cabia um carro de bestas.

A propriedade era constituída por um pequeno baixio, onde poderia semear alguns produtos agrícolas, mas grande parte do terreno ficava na encosta de um monte, apresentando-se mais difícil de lavrar. Esta tinha ainda o grande inconveniente de não possuir um poço onde pudesse ir buscar a preciosa água tão necessária para a agricultura. Para o cultivo de produtos hortícolas apenas podia contar com a água da chuva, que, escorrendo pela encosta do monte, enchia um pequeno barranco.

Era, no entanto, o único terreno cujo valor estava ao alcance dos 100 000 reis que este havia juntado ao longo dos anos e já incluía uma modesta casa que lhe serviria de abrigo, embora necessitasse de profundas obras de remodelação para poder acolher a sua futura família, caso viesse a constituí-la.

Após ter tomado posse da propriedade, procura encontrar locais onde pudesse perfurar um poço, tendo contratado, para o efeito, um homem capaz de descobrir veios subterrâneos de água, utilizando um método artesanal baseado na oscilação de um pêndulo.

É com grande desgosto que recebe a notícia da inexistência de água subterrânea na sua fazenda, mas, mesmo assim, não desiste do seu sonho: poderia semear cereais que pudessem sobreviver apenas com a água da chuva.

Necessitava, no entanto, desmoitar a propriedade e retirar as inúmeras pedras semienterradas que povoavam o terreno, indiciando que este nunca havia sido lavrado.

Perante a dificuldade da tarefa, resolve contratar trabalhadores para o ajudarem, remunerando os seus serviços com verbas superiores àquelas que os outros lavradores da região costumavam pagar, procedimento que estes receberam com desagrado, dizendo-lhe:

– Se habituar os trabalhadores a receber jornas tão elevadas, eles irão exigir-nos mais dinheiro, quando nós os contratarmos, contribuindo para a nossa ruína!

Quando ouvia esta recriminação, Manuel Silva mantinha sempre uma serena postura, limitando-se a responder:

– Pago aquilo que acho justo. Eu trabalhei muitos anos para patrões e sei quanto custa realizar estes trabalhos!

Naquela época, só homens que sabiam ler e escrever podiam votar. Manuel Silva era um dos poucos, da região, que fazia parte dos cadernos eleitorais, o que provocava a inveja de outros lavradores mais ricos, mas incultos.

No dia da votação, deslocava-se à vila, vestido com o seu melhor fato, não conseguindo disfarçar o orgulho que sentia ao ser cumprimentado por distintas personalidades do município que, com ele, exerciam o direito de voto.

Com o lucro de três colheitas, consegue terminar a remodelação da casa, decidindo que chegara a hora de constituir família. Já não podia contar com Maria de Jesus, pois esta, cansada de esperar por ele, já havia contraído matrimónio com o rendeiro de uma propriedade da região, tendo-se tornado mãe de duas crianças.

Várias mulheres mostram interesse em se casar com o lavrador, algumas até bastante mais novas do que ele. No entanto, acaba por optar por alguém que já há muito anos conhecia: Margarida, uma camponesa que trabalhara com ele na propriedade do fidalgo Luís de Lacerda. Esta enviuvara havia pouco tempo e já tinha tido um filho que, infelizmente, morrera com tenra idade, mas Manuel Silva considera-a a mulher ideal, pois cozinhava muito bem e sabia lidar com todo o trabalho da lavoura, o que constituía para ele uma preciosa ajuda.

Consorciam-se na igreja local, tendo tido por padrinhos o antigo patrão e a sua esposa.

O novo lavrador e a mulher conseguem cuidar sozinhos da pequena horta e do pomar, regando-os com a água retida no barranco, mas, em três momentos do ano, necessitam contratar trabalhadores: por altura da sementeira do trigo; na época da monda, que consiste na retirada das ervas daninhas que surgem na plantação; e na época da ceifa, quando este cereal, já maduro, ondula caprichosamente ao sabor do vento, emprestando à paisagem um dourado colorido.

Os trabalhadores de Manuel Silva gostavam de o ter como patrão, porque auferiam uma melhor renumeração e podiam ainda contar com a saborosa comida que lhes era levada, durante o intervalo da sesta, pela lavradora Margarida, como carinhosamente por eles era tratada.

Os anos vão passando e as colheitas correm-lhes bem, proporcionando ao casal o dinheiro necessário para manter uma vida satisfatória.

Tiveram, entretanto, uma filha a que puseram o nome de Filomena. Esta constituía a sua maior alegria, pois associava uma natural doçura a uma esperteza que a todos surpreendia.

Muitas famílias rurais necessitavam das crianças para as ajudar nas tarefas diárias, negligenciando a sua educação, só enviando os filhos para a escola quando a isso eram obrigados por um elemento policial. Manuel Silva, porém, teve o cuidado de ensinar à sua filha as primeiras letras, tendo-a acompanhado à escola no primeiro dia de aulas.

Anos mais tarde, Filomena casa-se com o filho mais novo de um lavrador, matrimónio que recebe a bênção do seu pai, em virtude de aquele demonstrar ter as qualidades necessárias para, no futuro, tomar conta da propriedade.

Aos 71 anos de idade, após uma intensa vida dedicada à agricultura, o lavrador dá o último suspiro, enquanto olha, através da janela, para a fazenda que ajudara a desenvolver.

Infelizmente, morre com um desgosto atravessado no coração: nunca fora encontrada, em nenhum local dos seus terrenos, a preciosa água tão necessária para o desenvolvimento de outras culturas.

Cinco anos mais tarde, um homem, contratado pelo marido de Filomena, consegue localizar, munido de uma forquilha de madeira por ele manuseada com uma determinada técnica, um veio de água subterrânea junto à horta, tendo sido aberto um poço para a captar. Não encontraram muito líquido, mas sempre era uma ajuda para melhorar a rega do pomar.

Muitos mais anos se passam.

A pedido dos netos do antigo lavrador, um geólogo consegue perfurar o terreno a várias dezenas de metros de profundidade, encontrando um vasto lençol de água. Se esta tecnologia estivesse disponível no tempo do avô, quanta alegria lhe teria proporcionado!

Dois dos bisnetos do antigo lavrador já não quiseram dedicar-se à agricultura, optando por outras profissões. Apenas o terceiro manteve uma pequena horta, deixando ao abandono a restante propriedade.

Há meia dúzia de anos, este terreno foi vendido pelos descendentes do antigo dono. Os novos proprietários implantaram nele um Parque Aquático, utilizando a encosta para colocar escorregas.

E hoje, no local onde Manuel Silva sempre ambicionara encontrar o tão precioso líquido, existe água em abundância, para alegria de crianças e adultos.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 01-08-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.

A imagem intitulada Ceifeiras que acompanha este conto foi pintada por Silva Porto, em 1893.

ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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