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CHIQUINHO
o guardador de porcos

Autor
JORGE FRANCISCO MARTINS DE FREITAS


Os primeiros raios de sol começam a iluminar, timidamente, a paisagem alentejana.

Àquela hora da manhã, vários descortiçadores já se encontram na ampla propriedade do fidalgo Afonso de Menezes, retirando, com golpes certeiros de machado, a cortiça que, há nove anos, vinha engrossando naquela zona do sobreiral.

Um rapaz magro, de estatura alta, aproxima-se dos trabalhadores. Era um dos responsáveis pela alimentação diária da porcada da propriedade, conduzindo os animais entre os sobreiros (ou chaparros, como são conhecidos no Alentejo), para que estes se alimentassem com as bolotas que iam caindo no chão, quer naturalmente, quer através do batimento com uma vara.

Conhecido por todos pelo diminutivo Chiquinho, era filho de Maria Albertina e Custódio Silva, um casal de camponeses que sempre ganhara o seu sustento realizando tarefas rurais sazonais nas extensas fazendas alentejanas. Infelizmente, as suas idades iam avançando e os proprietários agrícolas deixaram de os contratar, preferindo trabalhadores mais novos.

Com a jorna auferida pelo seu modesto trabalho, o porqueiro sempre ia aliviando a agreste vida dos seus progenitores, uma vez que Emília, a sua irmã mais velha, residia e trabalhava há vários anos em Évora, não se preocupando em ajudar os pais.

A maioria das pessoas considerava-o um rapaz tonto, pois este, isento de qualquer maldade, acreditava em tudo o que lhe diziam, o que, desde tenra idade, lhe vinha trazendo muitos dissabores.

Quando começou a frequentar a escola, os outros rapazes, apercebendo-se da sua ingenuidade, divertiam-se cruelmente com ele pregando-lhe partidas como daquela vez em que lhe disseram para ir dar parabéns à professora por ela ter ganho o prémio “a mulher mais boazona da região”. Claro está, que levou logo ali umas valentes reguadas na mão, tendo ficado de castigo, a um canto da sala, para grande divertimento dos maldosos colegas. Situações como estas, começaram, desde muito cedo, a condicionar a sua vida, prejudicando a aprendizagem.

Já com Emília, a espertalhona da sua irmã, ninguém se metia, quando esta frequentava a escola primária feminina; antes, pelo contrário, liderava todos os movimentos que subjugavam as mais inocentes companheiras de classe. Considerada uma boa aluna, acabaria por concluir, com distinção, a quarta classe. Mais estudos não fizera porque os pais eram pobres e o liceu mais próximo ficava muito distante.

Quando iam contar à mãe algum disparate que o filho havia feito ou dito por acreditar piamente em tudo aquilo que os outros perversamente lhe transmitiam, ela limitava-se, envergonhada, a responder:

— Não façam caso da conversa do Chiquinho! Ele não tem “os cinco alqueires bem medidos”! – justificando, assim, as suas falhas comportamentais.

Chiquinho sempre gostara muito de Constança, uma atraente rapariga, filha de uns pequenos lavradores. Embora tivessem brincado juntos quando eram crianças, ela nunca demonstrou qualquer inclinação por ele, acabando por se casar com o filho de outro agricultor.

Incapaz de conter só para si os sentimentos mais profundos que povoavam o seu espírito, Chiquinho havia contado aos trabalhadores que estavam a retirar a cortiça dos sobreiros o quanto gostava de Constança e as frequentes visitas que lhe fazia, não só para a ver como igualmente para admirar, com alguma infantilidade, a burrinha que esta tinha no palheiro. Estes, aparentavam escutá-lo com toda a seriedade, mas, nas suas costas, divertiam-se com as suas descrições, arquitetando um plano para se divertirem à sua custa. Assim, mal ele se aproxima, dizem-lhe:

— Como sabes, a Constança ficou viúva. Ela passou por aqui e pediu para te avisar que vai estar em casa à tua espera, pois quer casar contigo!

— Ela quer casar comigo? – questiona Chiquinho simultaneamente admirado e contente.

— Sim! Aproveita! Vai já ter com ela!

— E que é que eu lhe digo?

— Diz que vais lá para ver a burrinha dela que está no palheiro.

— E depois?

— Depois de estares no palheiro dizes que queres fazer ta-ran-tan-tan com ela!

Ta-ran-tan-tan? O que é isso? – pergunta ingenuamente Chiquinho.

— Não te preocupes com isso! Vai lá e faz aquilo que te dizemos! – respondem os trabalhadores rurais, sem conseguir conter o riso.

— Então e os porcos, onde os vou deixar? – pergunta Chiquinho.

— Não te preocupes. Nós tomamos conta deles. Vai depressa!

Chiquinho corre apressadamente pelos campos, até atingir a propriedade agrícola da sua amada.

Assim que o vê, Constança diz-lhe:

— Viva Chiquinho! A que se deve a tua visita?

— Quero ir ao palheiro ver a tua burrinha!

— Mas tu já foste lá várias vezes vê-la!

— Pois é, mas agora quero ir ao palheiro para ver a burrinha e fazer ta-ran-tan-tan contigo!

— Ah queres ta-ran-tan-tan? Então, toma! – e pegando ameaçadoramente na vassoura, afugenta-o com meia dúzia de cacetadas nas costas.

Ao fim do dia, depois de deixar os porcos na pocilga do patrão, regressa a casa muito triste.

Porém, a sua angústia diária ainda não terminara: a mãe manda-o ir buscar arroz à taberna local que também funcionava como uma pequena mercearia.

Mal ali chega, é novamente vítima da maldade de homens malformados reunidos à volta de copos de vinho, que gostam de se divertir à custa dos outros, principalmente daqueles que são rotulados de “parvos”.

— Tu tens uma irmã muito boa! Podias dar a tua irmã a um de nós! Ela é muito jeitosa!

Chiquinho, apesar de se sentir ainda muito abalado pela rejeição de Constança, tenta reunir forças para responder a mais esta provocação, dizendo atabalhoadamente:

— A minha irmã… A minha irmã… A minha irmã é uma senhora fina! Está-se borrifando para ti! A minha irmã está lá, em Évora, num bom emprego! Ela quer é um homem rico ou fino! Não quer um desgraçado como tu! Quer lá saber de ti!

De regresso a casa, conta à mãe como tinha defendido a irmã perante os homens da taberna.

— Respondi bem, mãe?

Esta, encantada com a façanha do filho, diz-lhe, expressando-se com sonoridade:

— Boa malha, boa malha, Chiquinho!

Os anos foram passando, com o constante martírio de Chiquinho, recalcado com todas as patifarias que lhe iam fazendo.

Tinha de continuar a trabalhar para ajudar os pais que cada vez estavam mais velhos e doentes. Não podia contar com o auxílio da irmã, pois esta continuava a residir em Évora, alheia a todo este sofrimento.

Chiquinho nunca chegou a ultrapassar a sua inata ingenuidade que tantos problemas lhe causava, mas demonstrou ser um ser humano muito superior aos que o rodeavam, mantendo sempre uma profunda amizade por todos, mesmo por aqueles que, de modo nenhum, mereciam a sua consideração.

Foi o amparo dos pais até estes falecerem, permanecendo sempre a seu lado.

Depois da morte destes, a irmã do Chiquinho regressa finalmente à sua terra natal, mas apenas para vender os poucos bens que haviam restado dos seus progenitores.

Depois desta voltar para Évora, Chiquinho passa a viver sozinho, completamente abandonado.

À noite, embrulhado numa velha manta, recorda a angustiante vida que havia tido desde criança, lembrando, com ternura, a “sua” Constança, a única mulher que amou e perante a qual jamais teve palavas que expressassem o quanto gostava dela.

Nos últimos anos de vida, passa a receber, em casa, alimentos e a visita regular de um médico, nunca tendo sabido que esse apoio era dado por Constança, condoída pelo infortúnio do seu amigo de infância.


© Jorge Francisco Martins de Freitas, 28-08-2021.
Proibida a reprodução sem autorização prévia do autor.



ENTRE PARAGENS

Esta narrativa inédita de Jorge Francisco Martins de Freitas faz parte de um conjunto de contos intitulado ENTRE PARAGENS, do mesmo autor, que vem sendo disponibilizado gratuitamente no Magazine cultural sem fins lucrativos O Leme.

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