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TEXTOS LITERÁRIOS


GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

          Poema de José Craveirinha in Karingana Ua Karingana [Era uma vez] (1974)



José Craveirinha lendo o poema Grito Negro
no Festival Internacional de Medellín


JOSÉ CRAVEIRINHA



Poeta Moçambicano
28 de Maio de 1922 - 5 de Fevereiro de 2003

Texto de Jorge Francisco Martins de Freitas


Conheci pessoalmente José Craveirinha, nos anos 70, quando eu era aluno da Universidade Eduardo Mondlane, no Maputo. O poeta esteve presente numa das aulas, a fim de falar sobre o seu mais recente trabalho, Karingana Ua Karingana, que significa, em changana, Era Uma Vez. Impressionou-me vivamente a humildade com que se referiu à globalidade da sua obra, limitando-se a afirmar que nada mais fizera que transmitir poeticamente o dia a dia dos moçambicanos, numa época marcada pela luta contra a ocupação colonial.

Em 1991, tive a oportunidade de o voltar a encontrar em Lisboa, passeando no Rossio, quando veio receber a Portugal o Prémio Camões. Estivemos a falar, durante alguns minutos, sentados a uma mesa do Café Nicola. Confessou-me o quanto apreciara a distinção, acabando por desabafar: «no fim da minha vida, sou finalmente rico!». Os mil contos do prémio (equivalente a cerca de 5.000 euros) não seriam - mesmo na altura - uma imensa riqueza mas, perante a pobreza em que vivia a maior parte das pessoas do seu país, o poeta atribuía àquela verba um elevado valor. Craveirinha não ficou rico – poucos poetas o conseguem em vida – mas o seu país em particular e a cultura lusófona em geral, ficaram muito mais enriquecidos com a sua obra.

OBRAS

Da sua obra destacam-se Xigubo (1964), Cântico a um Dio de Catrane (1966), Karingana Ua Karingana [Era uma vez] (1974), Cela 1 (1980), Maria (1988), e Haminas (1997).



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