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DIA INTERNACIONAL DA MULHER

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MULHERES NAS LETRAS, MULHERES DOS LIVROS

Mulheres nas Letras, Mulheres dos Livros

No âmbito do Dia Internacional da Mulher, o Município de Santiago do Cacém, no Litoral Alentejano, teve patente, em 2003, na Biblioteca Manuel da Fonseca, uma exposição organizada por Cecília Cabrita e Carla Fonseca, subordinada ao tema Mulheres nas Letras, Mulheres dos Livros, pretendendo destacar o papel desempenhado por várias escritoras na defesa da igualdade da mulher perante a sociedade.

Dado o inegável interesse desta mostra, reproduzimos, com a devida vénia, o texto e algumas das imagens que alí estiveram patentes.


ANA DE CASTRO OSÓRIO
Mangualde 1872-1935


Fotografia de Ana de Castro Osório

Intelectual, jornalista, ensaísta, conferencista, feminista e republicana, considerada uma das mais notáveis teóricas dos problemas da emancipação das mulheres foi uma dedicada e incansável lutadora pela igualdade de direitos. Fundadora da literatura infantil em Portugal, (o aspecto vulgarmente mais salientado da sua biografia) com Para as Crianças, uma colecção que iniciou em 1897. Nascida em Mangualde, foi residir para Setúbal, onde casou com Paulino de Oliveira tribuno republicano. Desenvolveu uma intensa actividade em prol dos direitos das mulheres. Fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, do Grupo de Estudos Feministas e da Cruzada das Mulheres Portuguesas. Dirigiu várias publicações destinadas às mulheres e colaborou com inúmeros artigos, na imprensa, numa linha de actuação, comum à maioria das mulheres republicanas, que privilegiou a educação e a formação de uma opinião pública feminista esclarecida. Realizou conferências e comícios. Foi consultora de Afonso Costa, Ministro da Justiça do Governo Provisório, na elaboração da lei do divórcio.
Às Mulheres Portuguesas (1905) é uma colectânea (250ps) de artigos fundamentais, sobre as principais questões femininas que nunca conheceu reedição, onde exorta as mulheres ao “trabalho e ao estudo”, que considera “passo definitivo para a libertação feminina” ,apelando para que as mulheres não façam do amor “o ideal único da existência”. Ser feminista, diz, é “desejá-las criaturas de inteligência e de razão”. Sobre a rapariga portuguesa da época é implacável e irónica: “não tem opiniões para não ser pedante, não lê para não ser doutora e não ver espavoridos os noivos”. Defende a igualdade de salários, “por igual trabalho, igual paga” e afirma que “nada mais justo, nada mais razoável, do que este caminhar seguro, embora lento, do espírito feminino para a sua autonomia”. Em Às mulheres Portuguesas analisa detalhadamente a situação da mulher e o casamento, da mulher casada perante o código civil e perante o trabalho.


MARIA TERESA HORTA
Lisboa 1937


Fotografia de Maria Teresa Horta

Estudante de Letras da Universidade de Lisboa. Fez parte do grupo Poesia 61, tendo colaborado em múltiplos jornais e revistas, bem como exercido uma acção cultural intensa, nomeadamente no cineclubismo, e militado com empenhamento nos movimentos de emancipação da mulher, motivação fulcral da sua personalidade inconformista e desenvolta. Desde o seu livro de estreia, Espelho Inicial (1960), a sua poesia, na linha da geração a que pertence, caracterizou-se por uma exploração das possibilidades metafóricas e das virtualidades sintácticas da linguagem como assunção de uma corporeidade livre, em que a sensualidade e a estesia se enlaçam (Amor Habitado, 1963, Candelabro, 1964, Minha Senhora de Mim, 1967). Dedicando-se também à ficção (Ambas as Mãos sobre o Corpo, 1970), Maria Teresa Horta foi em 1971, com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, uma das autoras das célebres Novas Cartas Portuguesas, que deram lugar a um processo judicial, pela sua transgressão dos códigos morais então dominantes. Mas é sobretudo na sua obra poética prolífera que se exprime o seu temperamento inquieto e fogoso, sempre em busca de experiências verbais e vivenciais novas.


NATÁLIA CORREIA
São Miguel, Ponta Delgada 1923-1993


Fotografia de Natália Correia

Nasceu na ilha em Ponta Delgada, ilha de São Miguel em 1923 e faleceu em Lisboa em 1993. Personalidade intelectual versátil, dedicou-se a vários géneros, além de marcar a sua presença na política e na imprensa. Sua produção abrange a poesia, o romance, o teatro, o ensaio, memórias, relatos de viagem, organização de antologias e colaboração em vários jornais e revistas. Embora tenha começado pela literatura infantil (A Grande Aventura de um Pequeno Herói, 1945) e pelo romance (Anoiteceu no Bairro, 1946) foi na poesia que encontrou a expressão mais depurada de seu temperamento a um só tempo lírico e irónico, características acentuadas a partir de Dimensão Encontrada (1957) e em suas obras dramáticas. Dentro dessa linha, que a tendência surrealista da poesia portuguesa pós-1950 vem sublinhar, compôs grande parte de sua obra poética, revelando um discurso lírico insólito e singular a oscilar entre a linguagem alegórica e a voz interventora. Estão neste caso, por exemplo, Passaporte (1958), o longo poema Cântico do País Emerso (1961) e mais tarde Mátria e Maçãs de Orestes (1970). Em seu livro Poemas a Rebate, publicado em 1975, chama, na introdução, ao conjunto de seus “poemas indóceis” de “pentagrama de indignação”. Indignação constante é o que não falta á obra de Natália Correia seja motivada pela censura que a amordaçou por longo tempo, seja por uma insurreição natural a todos os engodos ideológicos da organização social. A capacidade de abranger, contudo, várias expressões líricas, bem como sentimentos e visões aparentemente opostos, entre a subjectividade romântica e a objectividade realista, levaram-na à composição, nos dois últimos anos, de Sonetos Românticos (1991, Grande prémio da Poesia APE/CTT), na poesia, e ao romance As Núpcias (1992). No primeiro, parece voltar à primeira fase de sua expressão em virtude da abstraccão do objecto lírico, não obstante, agora, mais intelectualizada, beirando certo misticismo da criação poética, da escrita, da expressão verbal. Por isso, define o soneto como “misterioso nó que em sacra escrita / cimos e abismos une”. Abismos, que enfim, de onde sempre procurou garimpar a sua “aurífera” poesia.


MARIA AGUSTINA BESSA-LUIS
Vila Meã, Amarante 1922


Fotografia de Maria Agustina Bessa-Luís

Escritora portuguesa, natural de Vila Meã, Amarante, descendente de uma família de raízes rurais de Entre Douro e Minho e de uma família espanhola de Zamora, por parte da mãe. Fixou-se no Porto. Estreou-se, em 1948, com a novela Mundo Fechado. Tem-se dedicado quase inteiramente à criação literária. Para além disso, ocupou o cargo de directora do Teatro Nacional D. Maria II e fez parte da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Colaborou em várias publicações periódicas, tendo sido directora do Jornal Primeiro de Janeiro. É membro da Academia das Ciências de Lisboa, Classe de Letras. É uma das mais fecundas romancistas portuguesas, destacando-se pela sua capacidade de análise psicológica, de uma minúcia quase obsessiva, em toda a complexidade de relações que se estabelecem entre as suas personagens, e pela linha caudalosa de evocações que dá à sua escrita uma densidade muito característica. Muitos dos seua romances têm como pano de fundo momentos ou acontecimentos da história portuguesa, ou personagens históricas. Os acontecimentos históricos do 25 de Abril foram também cenário de algumas das suas obras, nomeadamente em Crónica do Cruzado Obs. (1976). É conhecido o seu interesse pela vida e obra de Camilo Castelo Branco, cuja herança se faz sentir quer a nível temático (inúmeras obras de Agustina se relacionam com a sociedade de Entre Douro e Minho), quer a nível da técnica narrativa. Igualmente reconhecida é a influência exercida nesta autora por José Régio. Agustina surge na cena literária portuguesa numa altura em que se desencadeia a oposição entre o Neo-Realismo e a geração da revista Presença, o segundo Modernismo. Desde Mundo Fechado (1948), preimeira obra de ficção da autora, que a criação literária se apresenta liberta dos conceitos programáticos do Neo-Realismo. O romance A Sibila (1954), Prémios Delfim Guimarães e Eça de Queirós) representa um marco muito importante do seu original processo de criação literária, conjugando regionalismo e universalismo, realidade e mito. A sua vastíssima obra inclui, para além dos romances, biografias romanceadas, contos, crónicas de viagem e literatura infantil.


FLORBELA ESPANCA
Vila Viçosa 1894 – 1930


Fotografia de Florbela Espanca

Poetisa portuguesa, natural de Vila Viçosa (Alentejo). Nasceu filha ilegítima de João Maria Espanca e de Antónia da Conceição Lobo, criada de servir (como se dizia na época), que morreu com apenas 29 anos, “de uma doença que ninguém entendeu”, mas que veio designada na certidão de óbito como nevrose. Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Maria Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou. Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se. Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas. Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henrique Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade. Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Lage, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem a Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente um “edema pulmunar”. Postumamente foram publicados as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930)As Máscaras do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Dário do Último Ano Seguido de um Poema sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciados (1931, 1967), seria publicado em 1982. A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito. A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza. Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim de século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa. Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns encontram dom-joanismo no feminino). A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.


LÍDIA JORGE
Boliqueime, Algarve 1946


Fotografia de Lídia Jorge

Escritora portuguesa, natural de Boliqueime (Algarve). Estudou Folologia Românica na Universidade de Lisboa, dedicando-se, depois, ao ensino liceal. Como professora, trabalhou em Angola e Moçambique, radicando-se posteriormente em Lisboa, onde é professora universitária e colaboradora de vários jornais e revistas. Membro de diversos júris de prémios literários e da Alta Autoridade para a Comunicação Social, os seus romances têm uma grande variedade temática. Estão sobretudo ligados aos problemas colectivos do povo português e às circunstâncias históricas e mudanças da sociedade nacional após o 25 de Abril de 1974, assim como à condição feminina. Têm sido, por vezes, associados à literatura sul-americana, pela presença, neles de elementos fantásticos. A cultura de tradição oral, a linguagem dos grupos arcaicos, os seus mitos e simbologias sociais, servem também o objectivo de reflexão sobre a identidade cultural portuguesa. A sua escrita reflecte a captação da oralidade, bem como uma estrurura narrativa em que se afirma, a par do discurso do narrador, o discurso das personagens. A perspectiva da narrativa desdobra-se assim num experimentalismo que marca, sobretudo, as suas primeiras obras. Uma das romancistas de maior sucesso na literatura portuguesa contemporânea, escreveu os romances O Dia Dos Prodígios (1980), O Cais das Merendas (1982, Prémio Município de Lisboa), Notícia da Cidade Silvestre (1984), A Costa dos Murmúrios (1988), A Última Dona (1992) O Jardim Sem Limites (1995), O Vale da Paixão (1998), O Vento Assobiando nas Gruas (2002), o conto a Instrumentalina (1992), e a peça de teatro A Maçon, encenada em 1997 e que tem como personagem principal Adeaide Cabete.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA PELAS ORGANIZADORAS DA EXPOSIÇÃO

Mulheres Século XX: 101 Livros, Lisboa, Câmara Municipal, 2001
A Imagem das Palavras, Lisboa, Contexto, 1991
Mordzinski, Daniel, Os Rostos da Escrita, Porto, Asa, 2000
História da Literatura Portuguesa, Porto, Porto Editora, (s.d.)
Biblos: Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, Lisboa, Verbo, 1997
Várias revistas Ler Livros & Leitores


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