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Este texto é um pequeno extracto - sem notas complementares - da obra António Patrício: Um Diplomata Republicano Liberal, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 2000. Para saber mais sobre António Patrício, recomenda-se a leitura integral do livro. Publicado no Portal O Leme em 30-03-2005, por deferência do autor.

UMA VIDA NORTEADA PELA INQUIETAÇÃO (1905/1911)

"O que há de melhor no homem é a inquietação..."


António Patrício nasceu no Porto, na Rua dos Caldeireiros, a 7 de Março de 1878 e faleceu em Macau a 4 de Junho de 1930, com 52 anos de idade. Foi na Foz do Douro que construiu o seu círculo de amigos e viveu os melhores anos da sua vida, aí regressando invariavelmente nos piores momentos: "Natural do Porto, passando na Foz as suas férias, de estudante primeiro, de diplomata quase sempre exilado, depois, foi por certo, em Portugal, neste mar de Carreiros, que seus olhos por mais longo tempo se ficaram... Estou a vê-lo, nas tardes quentes de Agosto, aparentemente desdenhoso a olhar o mar fixamente, a "beber azul", a "embriagar-se de azul" - como dizia - num encantamento sensual, todo lírico, que ele teimava em encobrir, aparentando um sensualismo pagão que não sentia..."
Sua mãe, Emília Augusta da Silva Patrício, era doméstica. Seu pai, António José Patrício, era armador e possuía uma agência funerária no Porto. Os avós paternos eram António José Patrício e Amália Teixeira Patrício. Os avós maternos eram josé da Silva e Maria Joaquina da Silva. António Patrício tinha um tio padre, o reverendo Patrício, conhecido pelos seus dotes oratórios. Embora tenha vivido a sua infância sem dificuldades económicas, o mesmo não se pode dizer da sua vida afectiva, pois assistiu à morte de três irmãos menores, vitimados pela tuberculose: Fernando, Emílio e Mário.
O diplomata frequentou o Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto, findo o qual se matriculou na Academia Politécnica do Porto, onde cursou Matemática, sem todavia concluir. Em 21 de Setembro de 1898 foi chamado para o cumprimento do serviço militar, ainda na sua cidade natal, tendo sido "apurado para os serviços auxiliares do exército em tempo de guerra.". Casou durante o primeiro semestre de vida militar, com Alice Minie Josephine d'Espiney, doméstica, do Porto, filha de pai francês e de mãe alemã (Bertha Elisabeth). Acrescente-se que Alice tinha ascendência aristocrática inglesa pelo lado paterno.
António Patrício foi pai ainda durante o ano de 1899. O seu primeiro filho chamava-se Emílio d'Espiney Patrício e seguiria igualmente a carreira diplomática. Entre 1899 e 1901 esteve em Lisboa, a frequentar a Escola Naval, mais atraído pelo mar do que pela farda, residindo na Rua da Cruz Vermelha na companhia de sua mulher. Em 1901 frequentou a Escola Médica do Porto, cidade onde regressara a pedido da mãe, em consequência da morte de seu irmão Mário. No seu círculo de amigos já se contavam, entre outros, o escritor Fialho de Almeida, Augusto de Castro, futuro director do Diário de Notícias, António Carneiro, o pintor de Amarante e João de Barros, o amigo de sempre. A principal constante da sua juventude foi ter passado todo o tempo disponível a contemplar o mar, que banhava Leça da Palmeira e a Foz do Douro. No final do ano de 1906, ocorreria a morte do pai, numa altura em que se preparava para fazer uma visita a Madrid na companhia de um dos seus amigos íntimos, Manuel Laranjeira.
Tendo iniciado o curso de Medicina na Escola Médica do Porto, aos 23 anos de idade, viria a concluí-lo apenas em 8 de Janeiro de 1908, com a defesa da tese Assistência aos alienados criminosos, demonstrando o seu pioneiro interesse pela psiquiatria. O tema que escolheu permitiu-lhe fazer uma comparação entre as socialmente aceites "espoliações legais" e os incompreendidos furtos patológicos. Patrício, conhecedor dos estudos psiquiátricos que despontavam, faz uma interessante incursão introspectiva. Dois anos depois, reafirmaria a sua visão crítica das regulamentações sociais mais paradoxais (embora compreensíveis à luz dos valores e dos interesses que serviam): "A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os dentes num só fruto.". António Patrício era um admirador do Dr. Júlio de Matos, que, após a implantação da República, viria a ser autor da reforma da assistência psiquiátrica em Portugal, em 1911. A opção temática da tese de Patrício prende-se com a admiração pelo mestre e assenta que nem uma luva na sua personalidade, nas suas reflexões filosóficas, na profundidade humana com que caracteriza as personagens dos seus livros.
No entanto, as classificações que obteve nos exames das 13 cadeiras do curso, oscilaram entre os medianos 10 e 12 valores. O diploma, passado em Outubro de 1909, com a classificação final de 13 valores, conferia-lhe habilitações para "exercer Medicina e Cirurgia", que nunca terá exercido efectivamente, embora existam referências a um serviço de dois anos prestado no Hospital Psiquiátrico do Conde de Ferreira, no Porto. Não nos parece que Patrício tenha chegado realmente a valer-se profissionalmente das suas habilitações superiores, visto que solicitou à Fazenda Pública em 26 de Outubro de 1909 a confirmação do não exercício de trabalho remunerado, o que aquela repartição estatal deferiu. Um seu colega e amigo desses tempos, Amadeu da Cunha - que lhe ouvira ler o livro Oceano no seu quarto de estudante - corrobora esta nossa tese, não só do não exercício da medicina, como da total falta de motivação para tal: "E, assim ele apareceu um dia, médico. Jamais, contudo se experimentou a praticar a arte. Bastara-lhe presenciar sobre a mesa de mármore o desfazimento... E virou-se para a diplomacia. Acertava dessa vez." .
Apoiado por José de Alpoim e estimulado e apdrinhado por Guerra Junqueiro, Patrício tentou a carreira diplomática, prestando provas no Ministério dos Negócios Estrangeiros para Cônsul de 2ª Classe a 15 de Dezembro de 1909. Embora os resultados tivessem sido publicados em Fevereiro de 1910, só entraria na carreira diplomática após a implantação da República, com a nomeação para o consulado de Cantão. Porém, antes de seguir para Cantão, foi-lhe confiada uma particularmente difícil missão que marcaria positivamente a sua carreira diplomática, em consequência da forma como a desempenhou. Trata-se da meritória acção que protagonizou na Corunha, conseguindo impedir o desembarque de um carregamento de armas destinadas aos monárquicos que conspiravam na Galiza, preparando aquela que viria a ser a primeira incursão couceirista no norte português. Permaneceu em Cantão entre Dezembro de 1911 e Outubro de 1913, data em que foi transferido para Manaus, como castigo pelo envolvimento com uma jovem de 18 anos, filha de uma influente família de Hong Kong.
Em Abril de 1914 foi colocado em Bremen, assumindo o seu posto seis meses mais tarde e onde ficaria retido até Fevereiro de 1917, em plena Guerra Mundial. Regressado a Lisboa, envolveu-se com Sidónio Pais, que fora Ministro Plenipotenciário em Berlim no início da Guerra e terá deixado premeditamente o cônsul em Bremen. Em consequência, seria afastado da diplomacia em 1918, pelo então Ministro dos Negócios Estrangeiros... Sidónio Pais. Recolheu à Foz do Douro e só retomaria a carreira no ano seguinte com a nomeação para Constantinopla, posto diplomático que se viu impossibilitado de assumir de imediato, sendo-lhe atribuída, no entretanto, uma missão em Atenas, onde viria a falecer o seu filho dilecto, vitimado pelo tifo, facto que marcaria profundamente Patrício durante o resto da vida.
Após mais de três anos na Grécia, regressou, de novo, à Foz do Douro para recuperar forças, até assumir o posto de Constantinopla em Setembro de 1924, onde permaneceria, contrariado, apenas oito meses. No ano de 1925 exerceu o cargo de Ministro Conselheiro na Embaixada de Londres, posto o que ensaiou várias tentativas de obter um posto do seu agrado, preferencialmente na Europa, acabando, contudo, por ser nomeado para Caracas, onde tomou posse em Agosto de 1927. No ano seguinte seria chamado a Lisboa pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, já no cumprimento das medidas de Salazar no Ministério das Finanças. Exerceu então funções na Secretaria de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros até à sua derradeira nomeação, em Março de 1930, para Pequim, cargo que não chegaria a assumir, por ter falecido três meses mais tarde em Macau, numa paragem solicitada pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Sobre António Patrício contam-se episódios curiosos que, provenientes ou não da imaginação dos seus admiradores, valerá a pena referir alguns, porque todos eles convergem na definição de um traço característico da personalidade do diplomata: uma desmesurada irreverência. Mitificação ou realidade, podemos descortinar, através desses episódios, o seu lado blasé, de resposta pronta à mais insólita ou imprevisível situação com que se confrontasse. Quando não gostava do trabalho de alguém, não lhe regateava críticas contundentes. Conta-se que Patrício se referia à escrita de Leonardo Coimbra como "legível, se ele não se esquecesse tão sistematicamente de empregar, nas suas orações, ora o sujeito, ora o predicado, ora os complementos - e por vezes, todos ao mesmo tempo. Outro exemplo, é da sua apreciação do teatro de Ramada Curto. É o próprio quem nos relata, no prólogo de um seu livro, a opinião de Patrício: "Pois o António Patrício - gentilíssimo amigo! - formava uma boa opinião a meu respeito, e como a formava, não hesitava em capitular de borracheiras, algumas das minhas peças de sucesso. Lembro-me que da "Noite no Casino", por exemplo, ele me perguntava se eu não tinha vergonha de ter escrito aquilo, e chamava à peça teatro para virgens de trinta anos e majores reformados.". Certo dia, na livraria Bertrand, um escritor ofereceu-lhe um exemplar de um livro seu e Patrício agradeceu-lhe mas, nas suas costas, atirou-o para o lixo. O escritor, perplexo, perguntou porquê e Patrício respondeu: "É onde deve estar!". Quando frequentou a Escola Naval, em Lisboa, o futuro diplomata fez parte da guarnição de honra que se estendia pelas escadarias da Sociedade de Geografia, onde se realizava um festa com toda a pompa e circunstância. De súbito, viu surgir o seu amigo Leopoldo Mourão e, acto contínuo, o jovem oficial deixou a posição de sentido para o abraçar. Aliás, Patrício entendia que "o mar é coisa admirável mas não pode ser visto com uma farda vestida.". Em Abril de 1930, durante a viagem para a China, Patrício terá desmaiado, em consequência do seu débil estado de saúde, pelo que o médico de bordo prontamente diagnosticou: "Está morto!" O escritor levantou, então, a cabeça e disse para a esposa: "Não faças caso. É uma besta!..." .
Quanto à postura blasé por que era conhecido, conta-se que tinha um espelho no chapéu, que lhe permitia compôr o nó da gravata de cada vez que o tirava para cumprimentar alguém. Exagero ou não, o que é certo é que Patrício criou uma imagem mítica que associava a sua cuidada apresentação à sua forte personalidade: "O coco, a bengala janota, as luvas representativas, de homem fino, de dedos virginalmente espetados, luvas que não são de calçar, mas de trazer; a andaima impecável, trescalando a córte europeu, a sartor impertigado do Boulevard, descendente, em linha directa, dos fornecedores de Lausun, ou de Morny, - tudo nele fosforejava, reverberava, timpanizava esplendorosidade humorística, pletora sardónica, uma fresca e desenvolta plenitude de fonâmbulo dextro de ridículos... (...) Patrício, socialmente, foi sempre um vencedor! Desde os tempos do Porto, em que, estudando uma vaga e desdenhosa medicina, atordoava os Clérigos e estarrecia a Praça Nov com o seu dandismo estrídulo de tripeiro; seu panamá acintosamente à rastacuéro; sua dobra aguerrida nos pantalone dum imprevisto grão civilizado. (...) O seu convívio havia de, necessáriamente, ressentir-se desta infatigável benemerência dos fados; havia de contrair (era fatal) o tic de impiedade trocista, adunca, torsionária, com que ele perseguia, pele-mele, medíocres e balofos, moços de cego de má-ventura, nostálgicos e escorraçados dum outro mundo melhor..." .
Quem assim o descreveu foi Carlos Parreira, redactor da Seara Nova, que tivera a oportunidade de acompanhar, nessa prestigiada revista, uma polémica em torno do inquérito literário dirigido por João Ameal no Diário de Notícias em 1929. Aliás, estes mesmos traços da personalidade do diplomata seriam acentuados por Augusto de Castro, um amigo de juventude: "Tinha no sangue a irreverência e a ironia. Ainda ele andava na Politécnica do Porto, já podia gabar-se de possuir a maior colecção de inimizades que um homem é capaz de reunir aos dezanove ou vinte anos.". Finalmente, consta que o diplomata, mal regressou do exílio forçado de dois anos e meio na Alemanha durante a 1ª Guerra Mundial, terá entrado pelo gabinete de Sidónio Pais no Ministério dos Negócios Estrangeiros e o terá esbofeteado. Aquela bofetada teve um preço muito elevado, como adiante veremos. O seu amigo João de Barros traçou um esclarecedor retrato da forte personalidade do diplomata-escritor: "A ironia acutilante da conversa de António Patrício - que tantas inimizades, ainda não inteiramente desarmadas, lhe trazia a cada passo - não era senão, afinal, o receio de deixar adivinhar a infinita impressionabilidade e o tumulto vibrante e quási febril da sua alma.". Este mesmo escritor e amigo de sempre - a quem chamaram "irmão gémeo de António Patrício" - foi quem mais escreveu sobre a obra e melhor retratou o diplomata: "(...) do seu temperamento enérgico, por natureza incapaz de atitudes de renúncia, de fraqueza, de covardia, (há uma covardia mental e artística pior e mais nociva de que todas as outras), que o inibissem de sonhos e criações maiores.".
A constante inquietação em que Patrício viveu - e em que se viu obrigado a viver, em consequência da azáfama diplomática - criou "...a lenda dum António Patrício estrangeirado, irónico, sarcástico, desdenhoso de maneiras, e prodigiosamente irreverente - que anda ainda a correr mundo...". Uma vez mais, João de Barros se vale do seu conhecimento íntimo dos sentimentos de Patrício para o recordar nos seus característicos inconformismo perante a vida e insatisfação face às suas criações literárias: "O seu insaciável amor da Vida, o seu constante anseio de evasão de todas as peias e limitações dos conformismos quotidianos, a sua paixão ingénita do mar e da aventura sempre renovada, o seu espírito em busca de perspectivas cada vez mais iluminadas, mais longínquas e mais difíceis de alcançar - quer no caminho da perfeição formal, quer no rumo abismal da emoção e do pensamento...".
Nem depois de morto Patrício alcançou o reconhecimento sereno da sua obra, em consequência da sua recusa em contemporizar com "escolas", literárias, filosóficas ou políticas. O seu não alinhamento com as diversas situações com que se deparou - apesar de se ter mantido fiel à ideia republicana - custou-lhe a unanimidade da crítica, mas valeu-lhe o respeito até dos adversários. Um dos seus companheiros mais queridos - Ramiro Mourão - em carta de agradecimento a João de Barros, a propósito do capítulo dedicado a Patrício no seu livro Pátria Esquecida afirmava pesaroso, cinco anos após o falecimento do diplomata-escritor: "Infelizmente na nossa terra e cada vez mais, os artistas a sério, os poucos que por cá existiram, até depois de mortos parece que afligem a rapaziada cabotina e apressada, que os votam ao esquecimento absoluto." .

CARREIRA DIPLOMÁTICA E ACTIVIDADE LITERÁRIA


"(...) Foi António Patrício o que, estando mais longe da realidade, nos poude legar a possibilidade de uma rápida visão de conjunto da sua obra, virtude também, da sua unidade intrínseca. E eu creio que não foi indiferente a este facto a circunstância puramente fortuita de ter passado a maior parte da sua vida de escritor no estrangeiro, inacessível portanto às familiaridades que diminuem ou à facilidade nos contactos sociais que não são, em Portugal, como se sabe, elemento de convívio e de interconhecimento fecundo." - Luiz Forjaz Trigueiros


Se relacionarmos a produção literária de António Patrício com a sua carreira diplomática, podemos sistematizar a capacidade criativa do escritor em quatro fases distintas e que, de alguma maneira, decorrem da sua actividade diplomática ou de acontecimentos marcantes da sua vida privada ocorridos durante o exercício dessas funções.

Antes da entrada na diplomacia (1905/1911)

"Morte! És para mim o sal da vida..."


Deixando de parte os poemas de juventude, muitos dos quais permaneceram inéditos até 1905 - como o Infante, escrito aos 18 anos - vamos considerar este ano como o do arranque da sua carreira literária. Foi em Janeiro de 1905 que António Patrício publicou Oceano, o seu primeiro livro, com uma dedicatória "ao génio" de Fialho de Almeida e com poemas dedicados a António Carneiro, Manuel Laranjeira, Paulo Osório, Francisco Moreira, Júlio Abeilard e Mabel Silverton. Contudo, não era um desconhecido. O livro veio consagrar o prestígio de que já gozava, particularmente nos meios intelectuais portuenses.
Patrício iniciava-se na escrita não sem receio da crítica. Os seus amigos dirigiram-lhe palavras de confiança e estímulo. Manuel Laranjeira escreveu-lhe uma carta de solidariedade, contra as críticas saídas no Porto, apesar de não serem desfavoráveis a Patrício: "Li duas apreciações sobre o teu livro (Diário da Tarde e Voz Pública) e por elas vejo que te têm afligido muito regularmente, meu pobre poeta. (...) Talvez as intenções dele fossem boas, como as de certos cães, que, quando nos fazem festas, nos sujam. Manda-os vadiar>/I> . Efectivamente, as críticas, embora elogiosas para Oceano e para Patrício, não deixavam de fazer conjecturas de ordem estética e ideológica que o autor rejeitava. Foram os jornais republicanos os que mais se "esmeraram" no elogio - consequência do prestígio de Patrício nesses meios - que inferiram abusivas "mensagens sociais" na sua obra: "O poeta canta, em algumas líricas adoráveis, os humildes, os vencidos, os fracos, os torturados, e em todo o caso o seu sentir é sempre dum requinte, duma aristocracia dominante" .
Fialho de Almeida dirige-lhe uma extensa carta do mesmo teor solidário da de Manuel Laranjeira, considerando que "Oceano é um livro de estreia muito belo" e procurando tranquilizar António Patrício, para que se não deixasse ultrapassar pela angústia provocado pela expectativa de verificar a recepção do seu livro pela crítica. Atentemos nesta passagem: "A inquietação em que V. está, depois de aparecer à luz o seu volume, não deve considerá-la senão como um momento de expectativa, que todos os autores sofrem, no momento de ser chamado o público a tocar com grosseiras mãos e comentários destoantes, a obra que, boa ou má, resume a delicada essência da nossa alma, o voo de uma aspiração para um ideal longínquo e misterioso. Também V. não tem que achá-la boa ou má, neste momento, porque não está sereno, nem podia ver lucidamente um filho que pela primeira vez manda embarcar. Deixe os leitores julgarem-na a seu tempo, e se o veredictum não fôr à altura do seu orgulho, aguarde que que outros filhos glorifiquem e vejam o potencial que há em V.".
Evidentemente, Patrício prezava a opinião de outros escritores seus amigos e, sobretudo poetas, precisamente aqueles que melhor compreendem a febril inquietação do criador. Para além de Fialho (que honrou muito Patrício com a citada carta), Manuel Laranjeira confessava a João de Barros que estaria a escrever um artigo sobre o autor de Oceano, desculpando-se pela demora em concluir esses e outros estudos que já deviam estar escritos: "O António Patrício, que me conhece, que sabe a minha vida íntima, esse perdoa-me facilmente...". Numa carta de António Patrício a Ramiro Mourão, que terminava com duas referências absolutamente inseparáveis do seu círculo de amigos - o mar e Manuel Laranjeira -, confirmando a grande amizade que os unia, de facto: "Saudades ao Mar. Coisas inefáveis ao Manuel."
. Mas, Laranjeira continua, na citada carta a João de Barros, expondo o objectivo do seu estudo sobre Patrício: "Não é um elogio da obra, não é uma crítica sequer: é um estudo sobre o autor, como artista do seu tempo, e da sua arte, como expressão do sentir contemporâneo." .
Ao jornalista Carlos Malheiro Dias, António Patrício enviou um exemplar de Oceano com o pedido expresso de uma crítica sincera: "Aí vai o meu livro e com ele o pedido de que sem misericórdia o pulverizes nas colunas críticas do "Diário de Notícias" ou em quaisquer outras.(...) Lê o livro e muito me obsequiarás dizendo sem embaraços o que dele pensas.". A mesma preocupação que Fialho e Laranjeira haviam observado em Patrício - e que procuravam tranquilizar - também o próprio autor de Oceano a reconhecia nesta carta a Malheiro Dias, manifestando o seu desalento pela postura dos críticos: "...todos a decifrar-me, todos a dizer o que eu sou..." .
Foi João de Barros quem fez a crítica que mais agradou a Patrício, dando início a uma profunda e sincera amizade, que aboliu o tratamento de senhor, que aqui é utilizado, comprovando a inexistência ainda de intimidade entre ambos: "Penso que o sr. António Patrício fez uma obra de há muito esperada: uma obra que sem proclamações dogmáticas e sem explanação de doutrinas, é um estímulo para a vida.". Esta opinião de João de Barros mereceu o agradecimento sincero de Patrício, que lhe escreveu:
"Exmº Senhor:
Muito e muito obrigado pelo seu artigo. Deu-me, como autor, uma consolação suprema: a de haver alguém, não me conhecendo que da leitura do meu livro, tirou a impressão que eu precisamente desejaria provocar. Desde hoje há para mim, na nossa camaradagem, qualquer coisa de afectuoso. O melhor elogio que alguém, generosamente, poderia fazer-me era ver no "Oceano" um estímulo para a vida. (...) Nada me parece mais grotesco do que querer espartilhar a vida nas varas de uma filosofia ou de um sistema: quem respira forte, estala-as ao primeiro movimento de inspiração. Nem optimistas, nem pessimistas; nem moral nem imoral; mas adorando toda a vida com a esplêndida amoralidade do instinto."
.
Nesta fase, que antecede a carreira diplomática de António Patrício, foram publicados mais dois livros: a peça de teatro que o consagrou O Fim (1909) e o livro de contos Serão Inquieto (1910). Sobre estes dois livros, Manuel Teixeira Gomes opinaria, mês e meio antes da implantação da República: "Ambos os trabalhos ampliam o resplendor do seu belo nome, querido poeta, que eu muito simpáticamente admiro.". Não deixa de ser curiosa a expressão "querido poeta", visto tratar-se de uma peça de teatro e de um livro de contos. Mas, ao contrário do que hoje acontece - em que só se conhece o seu teatro - António Patrício era tratado por poeta.
A peça O Fim, editada entre o regicídio e a implantação da República, consubstancia a visão mística da queda apocalíptica da monarquia, de que fora arauto principal o poeta Guerra Junqueiro, Bardo oficial do republicanismo. Respirava-se já o fumo dos estampidos redentores. Esperava-se o fatal Dies Irae. A queda da monarquia previa-se próxima. Era uma questão de tempo e António Patrício - na esteia de Junqueiro - fez-lhe um funeral digno do temível dia do ajuste de contas. Eis algumas passagens significativas do fim da monarquia, imaginado por Patrício. No Paço, à espera do inevitável apocalipse, em ambiente de loucura colectiva, uma criada sentenciou: "É o dia do juízo". Um Desconhecido, que tinha assistido à catástrofe, dirigiu-se ao Paço e relatou o sucedido: "Foi a Primavera trágica de um povo que hibernava há séculos, marasmado. Mais vermelha talvez por ser a última...". As esquadras estrangeiras avistavam-se e o povo, consciente do fim próximo, levou farnéis para assistir ao evento - continuava o Desconhecido - "com uma certeza vaga de sonâmbulos, uma esperança de superstição puerilíssima, espécie de sebastianismo tacteante...". Com a entrada das esquadras estrangeiras na capital, "ressuscitou o grande Lázaro da Raça! Dormia há séculos, desde que num areal de África se perdera um Rei adolescente...". O Desconhecido prosseguia no seu relato, assinalando que o sino da Basílica, que saudara a chegada dos galeões das descobertas, "surdo há séculos como a Raça, despertou com uma voz de maldição, rugindo, uivando, vingador, povoando a noite de avejões, fauna em delírio, superstições da Índia, lendas mortas... Pouco a pouco, em cada torre, nas centenas de igrejas que existiam, descendo as sete colinas da cidade, os sinos iam acordando ao chamamento do avoengo fulminador que da Basílica cortava o ar como um profeta em fúria...". Os sinos tocaram até que os semblantes do povo se transfiguraram. Homens e mulheres de todas as classes armaram-se e improvisaram chefes militares. O embate chegou e, com o tiroteio frenético, "membros de cadáveres voavam como num ciclone de asas partidas!...". Milhares de pessoas fugiam em pânico mas, de novo, o sino da Basílica soou e a multidão deteve-se e entregou-se voluntáriamente ao sacrifício, sem um grito. A metralha proveniente das esquadras durou horas, após o que procederam ao desembarque, abrindo uma rua entre os milhares de cadáveres. A Basílica, autodestruindo-se num acesso de raiva, atemorizou os invasores, que debandaram "desta terra de loucura", em cuja capital, agora, "os mortos reinam" .
O Desconhecido acreditava que chegara a hora de renascer das cinzas: "Morreu a capital: há mais país. Triunfar... pela vida ou pela morte, mas triunfar. Fomos iniciados.". Mesmo perante a ameaça de suicídio colectivo, o Desconhecido insistia em falar com a Rainha-Mãe, para que se conseguisse o impossível. Porém, a Rainha, indiferente ao Apocalipse que exterminara a capital do seu Reino, preparou-se para um banquete ilusório, proferindo apenas duas palavras em voz átona: "Tenho fome". O Desconhecido - qual Encoberto - que procurava fazer renascer das cinzas a Nação, percebeu então que nada havia a fazer. Era o fim da monarquia que já nem tinha alento para lutar pela sua própria sobrevivência, resignando-se à queda inevitável do regime de oito séculos.
Quanto a Serão Inquieto, António Patrício tem algumas passagens tão interessantes como desconhecidas. Num dos seus contos, intitulado "Diálogo com uma águia", o autor tem um excerto absolutamente original. Patrício narra aqui o "segredo" das últimas palavras de Cristo na cruz, de que uma velha águia dizia ter sido testemunha e que consistia no facto de Ele ter morrido virgem, circunstância que teria originado grandes prejuízos ao mundo: "Disse o remorso de não ter vivido, a tristeza infinita, o desespero e o mal sem remédio de ser virgem, de morrer no corpo morto de uma árvore, único corpo que sentiu, o de um cadáver... (...) Queria largar a cruz p'ra poder dar-se, à terra desse cerro, a alguma forma, a um corpo de mulher, a alguém, a alguém...". Mais adiante, neste Serão Inquieto, há uma compilação de aforismos, intitulada "Words...", atribuídas a um tal "C.F.", que Patrício apresenta do seguinte modo: "C.F., meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como outros se despedem para morrer. Casou depois de ter vivido intensamente, -- como outros se fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra anular a sua inquietação, a sua febre, na sedativa estupidez da vida séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer p'ra viver a vida com nobreza, quer p'ra ir ao encontro do seu outono, morrendo a tempo -- como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos vimos. Soube depois, pelos jornais, que é deputado e, o que é melhor... ou pior, que vai ser par". Este "C.F." levou David Mourão-Ferreira a atribuir pioneirismo a António Patrício na criação de heterónimos, ainda antes daqueles que celebrizariam Fernando Pessoa: Menos que de uma personagem, mais do que um pseudónimo, tais aforismos e anotações enquadram-se, afinal, num pré-pessoano esquema de heteronimia.". Eis um desses curiosos aforismos de Patrício: "Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos os crentes." .
Em 1911, António Patrício publicou o poema Estátua de Proa, que escrevera no ano anterior, exactamente um mês após o 5 de Outubro. Com o advento da República, Patrício ingressou na carreira diplomática alguns meses depois e interrompeu a sua actividade criativa, visto terem-lhe sido atribuídas missões na Corunha e a primeira colocação oficial em Cantão, onde se viu confrontado com cenários de guerra. .

Iniciação diplomática e produção literária (1912/1919)

"A iniciação contínua de viver"


Em pleno exercício do seu cargo de cônsul de 2ª classe em Cantão, Patrício dá-nos conta da sua actividade literária. Escreve uma carta ao seu amigo Ramiro Mourão, onde refere que está a trabalhar numa peça de teatro, que viria a ser publicada em livro com o título Pedro o Cru. Nessa carta, tece considerações aos críticos literários da época, que só recordariam António Ferreira e a sua Castro, quando ele publicasse o seu livro: "E tudo isto, menino, para que o A... (de F..., de F..., de F...!) seja glorificado, e eu ai! de mim! achado um imbecil pelas comissões paroquiais da literatura nacional!" .
Em Setembro do ano seguinte acabaria de escrever a peça, enquanto decorria o inquérito a que foi sujeito em Cantão (entre Junho e Outubro desse ano), pelo seu envolvimento com uma jovem de 18 anos. Por esta altura, escreve uma carta a António Cândido, onde espelha o que lhe vai na alma: "O mundo está cheio de palavras.". Logo no início da sua missão em Bremen, em Agosto de 1914, deixaria inacabado o Rei de Sempre - Tragédia Nossa, uma peça de teatro de que seria publicado póstumamente (37 anos depois!) um extracto, onde se descobre uma faceta desconhecida do autor, embora existente nas entrelinhas da sua poesia: o sebastianismo. Na Alemanha, em plena Guerra Mundial, escreveu, datado de Bremen, 14 de Dezembro de 1915, o poema Brancura, que viria a ser publicado na revista Atlântida e que nos dá uma ideia do estado de espírito de quem está por dentro de um conflito mundial: "A Morte pode vir. A terra é pura. / A neve já não baila pelo ar. / Lá abrem nesta mística brancura / as silenciosas fontes do luar..." .
Em Abril de 1917 publicou mais poemas na Atlântida. Começou a escrever Dinis e Isabel<(I>, que seria publicado em livro em 1919. O mais sintomático da sua propensão para a criatividade em tempos difíceis, é o facto de António Patrício ter adquirido um caderno de apontamentos, onde esboçou trabalhos literários a fazer, mal a Alemanha declarou guerra a Portugal. Nesse caderno registaria no dia 23 de Abril de 1916 a seguinte frase: "Shakespeare morreu a 23 de Abril há 300 anos". Shakespeare foi uma das suas referências literárias de sempre. Ainda em 1917, regressado da Alemanha, publicou alguns poemas nos números de Abril, Julho e Dezembro da Atlântida, onde vê com pessimismo o destino português. Na primavera de 1918, já na situação de licença sem vencimento, imposta por Sidónio Pais, editou a peça Pedro o Cru e escreveu Judas. Ainda de licença, acabou de escrever Dinis e Isabel, que seria editado no final desse ano. Entretanto, em 1919, foi nomeado para o consulado de Constantinopla em Julho e promovido a Cônsul de 1ª Classe em Dezembro e, no ano seguinte, confiaram-lhe uma missão em Atenas, enquanto não era possível assumir a gestão do consulado turco. .

A impotência criativa (1920/1928)

"Nothing can we call our own but death. Bem nossa, só a Morte"


Este longo interregno de 9 anos ficou irremediavelmente marcado pela morte do filho, ocorrida no final do ano de 1920, exactamente no dia seguinte ao da tomada de posse do cargo diplomático em Atenas. Desta terrível fase, do ponto de vista criativo, apenas se pode citar o seu último livro publicado em vida - D. João e a Máscara, que incluía Judas - editado no verão de 1924, intercalado entre o exercício da actividade diplomática em dois consulados, na Grécia e na Turquia. O interessante prefácio, que Patrício escreveu em Sintra no mês de Abril do ano da publicação do citado livro, é de puro pessimismo em torno da ideia de morte: "Só se vive na consciência, e a consciência só apreende morte.". Este facto reflecte ainda o abalo provocado pelo falecimento do filho, António Patrício Júnior - a quem ele tratava carinhosamente por Tótóji - e a angústia que o acompanhou durante longos anos, muito provavelmente até ao fim da sua vida. O último livro de Patrício representou a excepção à quase inexistência de produção literária que se verificou desde 1920 até à data do seu falecimento. No ano da publicação de D. João e a Máscara, o autor escreve do seu posto na Turquia, uma desalentada carta a João de Barros, lamentando a sua incapacidade para escrever: "Tens escrito? Eu por mim, nem uma linha. Tenho uma obsessão única: partir, partir, partir. Queimei o que tinha de queimar: não posso mais: a minha solidão moral é absoluta." .
Em 1927, depois de ter exercido funções nos postos diplomáticos do Pireu e de Constantinopla, preparou-se para partir para o seu novo posto na Venezuela, não sem uma breve espera por motivos de saúde. Demonstrando jà outro espírito, Patrício manda dizer de Caracas para o Ministro dos Negócios Estrangeiros que fora muito bem recebido na capital venezuelana, onde Eça de Queirós deixara o seu nome em alta consideração: "É ele, plenipotenciário póstumo, supremo.". O posto de Caracas levantou-lhe a moral e abriu-lhe perspectivas para um novo fôlego literário.

O reencontro com a escrita (1929/1930)

"Estou a escrever com devoção, com beatitude"


O ano de 1929 marcou o seu regresso à actividade literária, sendo de referir, pelo seu inegável interesse, a resposta de Patrício ao inquérito literário de João Ameal no Diário de Notícias, em 11 de Abril desse ano. António Patrício, então em funções na Secretaria de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros, deixou inacabadas, em Setembro desse ano, as peças O Auto dos Reis ou da Estrela, de cariz religioso, e A Paixão de Mestre Afonso Domingues, tendo por cenário o Mosteiro da Batalha. Para além daquelas obras, estava a trabalhar num romance - Teodora, Imperatriz de Bizâncio - a propósito do qual Teixeira Gomes lhe endereçou uma carta em que o felicitava pela tranquilidade finalmente encontrada, mas onde também profetizava a não conclusão do projecto, como infelizmente veio a acontecer, devido à sua morte prematura. Contudo, essa carta só seria publicada dois anos após o falecimento de Patrício: "Parabéns por ter encontrado refúgio espiritual (pois que lhe empreendeu o estudo sério), nas sumptuosas e abundantes fraldas da Imperatriz Teodora, esse astro de órbitra sem par. (...) Tal figura, no quadro rígido, hierático, ocelado de pedrarias, da sua época, dá um contraste aliciador, mas onde um autêntico poeta como o António Patrício, saberá colher flores imarcessíveis. Não há dúvida: é um refúgio a todos os respeitos invejável, seguro. Todavia temo que lhe não sobre tempo e descanso para o gozar e explorar..." .
Ele próprio confessava a João de Barros a sua total entrega à escrita, informando que suspendera a Teodora, para se dedicar devotadamente a Mestre Afonso Domingues: "Eu que tanto tenho rolado no planeta, ignorava a Batalha. Fui lá há duas semanas, e fiquei paff, extasiado: literalmente e sem literatura alguma, - de olhos razos. A prodigiosa, a adorável coisa!... chama-lhe assim: coisa, porque tudo o mais que tenho a dizer, espero em Deus que tu o lerás ( e que antes ainda to lerei eu), com este nome: "A Paixão de Mestre Afonso Domingues".Estou a escrever com devoção, com beatitude. (...) Que amor de assunto! Estou apaixonado: e se eu o fizer bem, não interessará ninguém (a ti há-de interessar-te), e não fará sombra de sucesso." .
A nomeação para novo posto diplomático, em Pequim, interrompeu a actividade literária do diplomata, que viajou para a China e acabou por falecer em Macau, sem ter tomado posse do seu cargo, nem concluído as obras que estava a escrever. Carlos Olavo, seu ex-companheiro de A Vitória, testemunha as suas preocupações políticas, insondáveis na sua obra literária, mas que manteve até aos derradeiros momentos da sua atribulada vida: "Mas a sua literatura, preciosa como ele próprio, não matou no seu espírito o interesse que sempre teve pelas lutas da política e pela marcha das ideias. António Patrício acreditava e confiava na Democracia. No último abraço que me deu, ao partir para a China, disse-me: -- Vou ver um povo que luta e sofre pela sua libertação..." .
Após a sua morte, poucos se interessaram pela sua obra, mas - faça-se justiça - os seus verdadeiros amigos nunca o esqueceram. Um deles, várias vezes evidenciado ao longo deste estudo, João de Barros, dedicou-lhe um capítulo do seu livro Pátria Esquecida, o que motivou outro grande amigo do poeta-diplomata, Ramiro Mourão, a endereçar-lhe uma carta de agradecimento, numa inequívoca prova da profunda amizade que os uniu, ambos, a Patrício: "Todos os capítulos me interessaram muito mas, de uma maneira especial e como é natural, o estudo àcerca do nosso Patrício, que acho notável e superiormente observado.". Mais adiante, Ramiro Mourão, revoltado contra o esquecimento a que votavam Patrício e a sua obra, desabafava contra o regime, em termos que seriam, certamente, bem familiares aos três: "(...) Cada vez mais incompatível com isto tudo! Embora a inteligência me assegure que esta patuscada nacionalista não tem pés, embora tenha uma cabeça cheia de teorias - e por isso não pode ir muito longe...". Ao contrário do que pensava, a "patuscada nacionalista" fez uma caminhada bem longa, de décadas, justamente em consequência da sua cabeça... Quase década e meia depois do desaparecimento de Patrício, um outro admirador, Fernando de Araújo Lima, solicitava ajuda a João de Barros (uma vez mais!...), para a publicação de um livro sobre a vida e a obra de Patrício: "Escrevi um estudo sobre António Patrício. Devo dizer a V. Exª que Patrício exerce sobre mim, desde verdes anos, influência de alcaloide. A sua obra perturba-me, fascina-me.".
Embora o autor deste estudo tenha contado com a colaboração de Aquilino Ribeiro para a sua publicação pela Bertrand, o livro esperava havia longos meses para ver a luz do dia. Para além de pedir o empurrãozinho de João de Barros para pressionar a editora, solicitou-lhe também um prefácio, que significaria para Araújo de Lima "...o sol a iluminar a sombra do meu ensaio...", como adianta na citada carta. Em todo o caso, o livro só seria publicado no ano seguinte, associando o relativo desinteresse editorial à pouca conveniência institucional em dar a conhecer tal personagem, que até traçara, largos anos antes, uma profecia pouco optimista do destino português, em nada coincidente com o espírito reinante nos homens que seguravam o leme dos destinos do país:

"Portugal é um navio naufragado
em que a tripulação espera há séculos..."


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