O meu percurso artístico é arisco a catalogações pois baseia-se na concepção do artista como totalidade e, nesse sentido, é-se criativo ou não. Uma pessoa não nasce para ser isto ou aquilo. Ao longo da vida desenvolvem-se capacidades e conforme nos dedicamos mais a uma que a outra, construímos uma vocação a que chamamos a nossa maior facilidade. Mas esta facilidade dá muito trabalho, não é gratuita. Paga-se com o corpo e com a alma. Há que fazer opções, claro, e tentamos sempre escolher as melhores.
No entanto, as vocações que inicialmente deixamos de parte, aquelas aparentemente menos fáceis, são outros tantos caminhos nossos. Não os devemos ignorar. A criatividade é um dado de base, a nossa herança genética, se quisermos. Depois aplica-se a tudo aquilo em que tocamos e queremos criar. Nesse sentido, o artista, é uma espécie de demiurgo, como na ópera-poema de Dali, Être Dieu. Aqui se misturam todos os códigos e estilos musicais numa visão criadora surrealista que antecipa, desde já, o que hoje é
de facto uma realidade e não uma 'surrealidade': o ser vário, polimorfo, aberto a todas as metamorfoses criativas.