Sobre o livro
Para apreciação dos nossos leitores, transcrevemos uma pequena passagem do seu livro:
 MODISTAS
Por todo o séc. XIX instalaram-se, com grande sucesso, em Lisboa, modistas de roupa e de chapéus e alfaiates, a maioria de origem francesa, o que prova que, em questão de modas, os e as portugueses se dispunham a gastar o que tinham e o que não tinham para andar vestidos pela moda europeia. Sim, porque o modo de trajar faz toda a diferença ou, se preferirem «O hábito faz o monge.» Dentre as muitas modistas com nome e clientela chique distinguia-se a magríssima Marie Levaillant, de origem belga, com estabelecimento naquela «ladeira vaidosa» (como Ramalho chamou à principal artéria do Chiado) e que vestiu a rainha D. Maria II. Foi costureira da grande modista da época, Maria Ana Burnay, com atelier na Rua do Alecrim, nº 10 de quem se falará mais adiante. Esta senhora Burnay, segundo Tinop, abriu a sua oficina «no momento histórico em que os pulmões de Portugal se dilataram, ao receberam a notícia da queda de Napoleão (1814) e do regresso das nossas tropas». Em 1835, madame Burnay era «modista de Sua Majestade Fidelíssima». Maria Ana Burnay era casada com Jean-Baptiste Burnay antepassado de Henrique Burnay. Já lá vamos. Dentre as modistas mais assediadas pelas elegantes encontravam-se madame Lombré e a Aline Neuville que se estabeleceu no Chiado, em 1849. Fora do Chiado, num 1º andar da Rua da Prata estava instalada a Duprant, que confeccionara vestidos para a princesa e futura rainha, Carlota Joaquina. Mais tarde Eça de Queiroz (1845-1900) sempre atento e mordaz diria: «A Moda é que é uma religião. A modista reina, absorve tudo, não deixa tempo para a menor ocupação ou curiosidade de espírito. Rara a mulher que lê um livro. Rara a que tem um interesse intelectual.» Eça exagerava, porque não eram tão poucas as senhoras que liam, não Michelet ou Victor Hugo, mas talvez Madame de Staël e os Dumas. Ficam aqui, por uma questão de justiça, os nomes de contemporâneas de Eça, que não só liam como escreviam: Guiomar Torresão (1844-1898), romancista, jornalista viajada, fundadora, entre outras publicações, do Almanaque das Senhoras, muito lido; Alice Pestana (1860-1929), pedagoga, escritora e autora de crónicas publicadas no Diário de Notícias, sobre assuntos sociais sérios; Albertina Paraíso (1864-1954), poetisa; Ana de Castro Osório (1872-1935), pedagoga e divulgadora das ideias liberais; Maria O’Neill (1872-1932), ficcionista; Virgínia de Castro e Almeida (1874-1945), contista, pioneira na literatura para crianças e delegada à Comissão de Cooperação Intelectual, em Paris. E muitas mais, que terão oportunidade de brilhar noutras paragens. Mas vem a talhe de foice a opinião de Ramalho Ortigão, em Novembro de 1873: «O português, que sempre lê pouco, no Verão então não lê nada.»
E voltemos às futilidades! O rei D. Fernando e seu filho D. Luís eram janotas, usavam coletes de veludo preto e calças de casimira cor de ervilha seca. Estavam em moda capas à espanhola e xailes-manta para homem, os cache-nez, os chapéus de feltro à Lamartine, as botas-de-elástico e as bengalas de estoque.
No Chiado passeava-se para ostentar e criticar a elegância no vestir e no porte de quem ali ia e escolhiam-se os locais de culto para isso. A Casa Havaneza foi um dos pilares da vida social de Lisboa. Aquele espaço era um disputado local de convívio e estava transformado no quartel-general dos lisboetas elegantes, no dizer de Eduardo de Noronha: «O habitante da Ilha dos Galegos contrasta com o peralta da Casa Havanesa (...) Do lado de cá o político, o literato, o galanteador, o aristocrata, o capitalista, o boémio, de quando em quando o homem de ciência; de lá, o rude campeão do músculo desconhecedor do nome dos ministros, desdenhoso do livro, quase fiel à mulher deixada na terra, tendo pelos titulares uma respeitável soma de desprezo, amontoando um pecúlio vintém a vintém, explorando os estroinas sem piedade, encarando a chamada civilização com a mais imperturbável filosofia.»
Das portas da Casa Havaneza também se podia assistir a uma boa cena de pugilato. E isso já acontecera entre o jornalista e político Emídio Navarro e João Radisch.
Recuamos ao passado. Em meados do séc. XIX clamava o Jornal do Comércio : «Isto não pode continuar assim!» Tudo por causa do mau estado do pavimento do Chiado. O jornal fazia eco do descontentamento dos moradores da zona. Por causa do macadame coberto por burgau (cascalho) os cavalos caíam e arrastavam na queda os ocupantes dos carros, que sofriam ferimentos graves, já para não falar dos prejuízos materiais, como acontecera ao conde de Castelo Melhor, que num frio dia de Fevereiro, ficou sem carruagem e com o cocheiro em estado deplorável. E a impertinente poeira do Chiado, que Ramalho Ortigão dizia ser «uma especialidade curiosa, tão romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miúda, subtil como a veloutine de Lubin. Ligeiramente tocada pela asa morna do vento leste, insinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladamente, profundamente – como a calúnia.»
Nas histórias que envolveram a Casa Havaneza consta aquele episódio desagradável que redundou em duelo. Outros terá havido com fins menos trágicos. Passamos aos factos: Ânimos exaltados no Parlamento, na sessão de 22 de Março de 1867. O deputado José Júlio de Oliveira Pinto virou-se para António Cabral de Sá Nogueira (irmão do marquês de Sá da Bandeira), e chamou-lhe «decrépito e irresponsável». Foi uma balbúrdia na Câmara. Sá Nogueira desafiou José Júlio para um duelo. Em Lisboa estava um sobrinho do ofendido, Miguel de Sá Nogueira, major e brilhante oficial de cavalaria do exército do príncipe Humberto de Sabóia (depois rei) e que depois das campanhas de África era conhecido pelo «D’Artagnan de África», que não gostou da ofensa. Houve várias trocas de cartas entre o ofendido e o major, porque José Júlio recusava bater-se em duelo. Era de índole pacífica, mas Sá Nogueira, militar até à medula era de opinião que tinha obrigação de salvar a face do tio. O assunto continuou com cartas para cá e para lá até aquele dia no Chiado.
Na tarde de 25 de Março, José Júlio descia o Chiado acompanhado de um amigo. O major Sá Nogueira encontrava-se à porta da Casa Havaneza e perguntou a um amigo quem era o tal José Júlio. Quando este passou ali mesmo na rua o outro “disparou”: «É aquele!». Miguel Sá Nogueira aproximou-se do visado, ameaçou-o que lhe batia, tendo mesmo tentado cuspir-lhe. José Júlio sacou do revólver, mas o amigo impediu-o de disparar. Perante isto José Júlio teve mesmo que aceder ao duelo. A mulher estava no fim da gravidez.
Combinou-se o duelo à pistola para o dia 29, às 6 horas da manhã, num campo perto da estrada de Palma de Cima (onde é hoje a Universidade Católica Portuguesa). Os contendores e padrinhos presentes. A sorte escolheu Sá Nogueira a disparar primeiro. Afastaram-se os 25 passos da praxe e soaram as vozes «Atenção», «Preparar» e à voz de «Fogo!» zumbiram as balas dos dois lados e caiu sem vida o desafortunado José Júlio. No funeral incorporaram-se cento e treze trens. Todos os deputados estiveram presentes. O marquês de Nisa comentou: «Se não se batesse era um covarde, morreu é um mártir». Sá Nogueira não se livrou de passar a ser conhecido como o «assassino de José Júlio».
Neste ano de 1867, foi abolida a pena de morte em Portugal para os crimes civis, e em Dezembro, Magalhães Lima fundou o jornal O Século.
Páginas 71 a 75
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