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ZITA DE HABSBURGO
A Imperatriz Coragem


ENCANTOU O MUNDO NO ÚLTIMO CASAMENTO IMPERIAL DOS HABSBURGO.
DEPOIS VEIO A GUERRA, O EXÍLIO NA ILHA DA MADEIRA.
SOBREVIVEU 67 ANOS AO MARIDO, ENFRENTANDO A VIDA COM DETERMINAÇÃO.


Texto de Maria Luísa V. de Paiva Boléo

A versão inicial deste texto foi publicada na revista Máxima nº 216. A presente versão, revista e actualizada pela autora, foi inserida no portal sem fins lucrativos O Leme em 14 de Abril de 2006.


Zita de Bourbon-Parma Habsburgo (1892-1989) e o marido, Carlos I de Áustria, V da Hungria, na sequência do fim da Grande Guerra e da passagem da Áustria a República, foram forçados ao exílio na ilha da Madeira, em 1921. Zita ficaria viúva com oito filhos, tendo pela frente uma vida cheia de vicissitudes. Foi apelidada de Imperatriz Coragem. Sessenta anos antes, a imperatriz Sissi também escolhera a ilha da Madeira para recuperar da sua débil saúde.

"Vivi numa família onde tive uma infância muitíssimo alegre e feliz", dizia Zita de Bourbon-Parma. E quando nasceu, tinha já uma casa cheia de irmãos e irmãs, sendo a mais velha de 22 anos. Às refeições, era habitual sentarem-se cinquenta membros da família, com as amas. Numa grande irmandade as alegrias e tristezas são partilhadas e deixam uma marca importante, porque a entreajuda muito forte e á mais tolerância e amor pelos que requerem maior atenção devido a deficiências, como aconteceu nesta família.


             Zita nasceu a 9 de Maio de 1892, em Itália, porque a família vivia nove meses do ano na Áustria, em Schwarzau (60 quilómetros a sul de Viena), e de Janeiro a Julho gozava as temperaturas amenas de Pianore, em Parma, viajando para o Sul em 15 vagões de um comboio.
             Quem ensinou as primeiras letras a Zita foi o pai, que também lhe deu a ler os livros da condessa de Ségur e de Walter Scott. Na ida de escolar, os meninos Bourbon-Parma Habsburgo foram para um colégio jesuíta na Áustria, e as meninas para o Instituto São José na Baviera. Com onze anos, Zita entrou para as Salesianas. Foi um choque terrível, porque a falta de liberdade, a ausência da família e uma disciplina férrea deixaram-na deprimida e doente, O pai morreu em 1907, quando tinha Zita apenas dezasseis anos. Em 1908 foi viver uns tempos para o Reino Unido, onde estava a avó Adelaide, que foi rainha de Portugal e entrara para o convento das beneditinas na ilha de Wight, em Ryde.
             De regresso à Boémia, é aqui que Zita encontra pela primeira vez Carlos de Habsburgo, seu futuro marido. O imperador Francisco José de Habsburgo, depois de enviuvar da sua querida Sissi, em 1898, e de ver as filhas, Giséle e Maria Valéria, casadas, não tinha uma presença feminina junto de si (porque a sua companheira oficial, Catarina Schratt, não era recebida na corte), assim a partir de finais de 1911, passou a ter a seu lado, nas cerimónias oficiais, a sobrinha-neta Zita de Bourbon-Parma Habsburgo, como primeira dama do país.
             O sucessor de Francisco José seria, em linha directa, o seu filho Rudolfo, que morreu em 1889. Depois de uma sucessão de mortes, algumas dramáticas, que terminou com o assassinato, em Sarajevo, em 1914, de Francisco Fernando - herdeiro do trono do império, cuja morte desencadeara a Primeira Guerra Mundial - Carlos, filho de Otão, outro irmão de Francisco José, passa a herdeiro, com o título de Carlos 1 de Áustria, Carlos V da Hungria, que casou com Zita de Bourbon-Parma.
             Ambos descendiam da Casa de Bragança, mais precisamente do rei D. JoãoVI. Zita era filha de Roberto, último duque reinante de Parma, que primeiro casara com Maria Pia das Duas Sicílias, de quem teve doze filhos (sobreviveram nove), e depois com Maria Antónia de Bragança, filha do rei D. Miguel de Bragança. Deste segundo casamento nasceram mais 12 filhos, mas apenas sobreviveram sete - Zita era a quarta.
             Como o império era composto de vários países e povos, Carlos teve de aprender, além da sua língua materna, francês, inglês, húngaro, checo, italiano. E como varão Habsburgo, teve formação militar. Aos 18 anos, alistou-se no 7 ° Regimento de Dragões da Boémia. Estudou em Praga, Ciências Políticas e depois Teologia, Filologia e Antropologia.
             Nas vésperas do casamento de Zita e Carlos, o castelo de Schwarzau e outras residências dos Habsburgo acolheram vá rias centenas de parentes para o grande acontecimento do ano: o casamento do sobrinho-neto querido do imperador.
             A excitação da chegada dos convida dos era enorme. Acomodar todos os parentes, fossem eles Bragança, Bourbons de Espanha, Orleans, Liechtenstein, Cobourgo, Saxe, Wurtemberg, Wittelsbach, Calábria, Modena, Lowenstein ou Thurn und Taxis, entre outros, não foi complicado, porque os Habsburgo sempre foram muitos e a criadagem estava habituada a receber cabeças coroadas.
             O dia 21 de Outubro de 1911 estava particularmente ameno e radioso. Nada podia agradar mais ao imperador Francisco José que esta união ideal de um arquiduque com uma princesa real de Parma. Os noivos viriam a ser um casal perfeito - apenas a morte os separaria dessa felicidade total. Toda a gente ilustre da época esteve neste casamento. A cerimónia foi fotografada e filmada. O cortejo até à igreja foi seguido por uma multidão que ovacionava os noivos. Presidiu ao casamento um enviado do Papa. E ninguém podia imaginar que este seria o último casamento imperial dos Habsburgo. Carlos envergava a farda dos Dragões da Lorena e o colar da Ordem do Tosão de Ouro. Zita estava linda no seu vestido de cetim cor de marfim. Na cabeça, uma tiara de onde caía o véu. Ao pescoço, um colar de pé rolas fechado por uma jóia. No pulso, uma pulseira preciosa.
             Dos presentes, destacava-se o diadema de brilhantes, oferecido pelo imperador Francisco José. Carlos já tinha oferecido um cavalo à noiva, mas a prenda de casamento foi um colar de pérolas com 22 voltas. O "Sim" foi pronunciado em francês e o banquete servido em baixela de ouro do pai da noiva. Muita música de Strauss e Lehar... e baile até tarde.
             A lua-de-mel foram quatro semanas a viajar, muitas vezes incógnitos, pelos imensos territórios dos Habsburgo. Numa ida ao cinema, Carlos e Zita viram o seu próprio casamento nas actualidades. De regresso a casa, a futura imperatriz começou a aprender checo e húngaro. E Carlos regressou à sua vida militar.
             Não se adivinhava que uma Grande Guerra estalaria em breve, precisamente na Áustria, que declarou guerra à Sérvia, quando assassinaram Francisco Fernando.
             O primeiro filho dos futuros imperadores, Otão, nasceu em Novembro de 1912. E a família foi crescendo: Adelaide nasceu em Janeiro de 1914, em Fevereiro de 1915 nasceu Roberto e, no ano seguinte, Félix. Carlos e Zita são acarinhados por todo o império. Zita, particularmente alegre e popular, tinha sempre uma palavra para cada pessoa. Os paparrazi fotografavam-na constantemente. Era extremamente dotada para presidir a cerimónias oficiais, apenas com 20 anos.
             A 21 de Novembro de 1916, aos oitenta e seis anos, o imperador Francisco José entrega a alma ao Criador. Carlos, como herdeiro do trono, numa atitude inédita e contra todos os protocolos, pegou no braço de Catarina Schratt, companheira de tantos anos do imperador, e levou-a até à câmara mortuária do monarca falecido, para ela lhe dar um último beijo. Discreta, Catarina pousou-lhe sobre o peito três rosas e chorou em silêncio.
             Carlos I ascendeu então ao trono do império austro-húngaro. Ambos foram coroados reis da Hungria, em Budapeste, a 20 de Dezembro de 1916, numa cerimónia de imensa beleza, com as vestes e coroas ancestrais húngaras - algo que ficou na memória e no coração de Zita para sempre. Estava-se em plena guerra. Em Março de 19l8, Zita deu à luz Carlos Luís e a família retirou-se para o castelo de Eckartsau.
             A Alemanha apoiou a Áustria. A Rússia, a França, o Reino Unido e o Japão, entre outros, posicionaram-se do lado da Sérvia, a que se juntaram os EUA. Depois foram mais dois anos de lutas sangrentas. Os países aliados que venceram a guerra contra a Alemanha irão decidir os destinos do casal imperial. Carlos I nunca assinou a abdicação.
             A 12 de Novembro de 1918, a república é proclamada na Áustria e, em Março de 1919, a família imperial é forçada ao exílio. Depois de um acordo entre os embaixadores de Londres e Lisboa, ficou decidido que Carlos e Zita viriam para a ilha da Madeira. A bordo do cruzador Cardiff, casal imperial chegou à Madeira a 19 de Novembro de 1921. Com os bens confiscados, Zita e Carlos tiveram de viver com muitas restrições A 18 de Fevereiro um madeirense abastado cedeu-lhes a Quinta do Monte, com uma bela vista para o mar, mas sem grandes condições nos dias invernosos. Ali ficaram os ex-imperadores com os filhos mais pequenos e uma comitiva restrita. Mais filhos nascerão: Rudolfo, em 1919, e Carlota, em 1921. A última filha, Isabel, nasceria em Espanha, já depois da mor te do pai, em 1922.
             Todos os dias Carlos de Habsburgo fazia um passeio de duas horas a pé, às vezes de bicicleta. Comprava os jornais no Funchal. A 10 de Março, sentiu-se engripado e com tosse. Diagnóstico: bronquite. Em finais de Março, sempre à cabeceira do marido, Zita rezava para que a febre baixasse. Mas a morte aproximava-se. E Otão, o filho mais velho, também estará junto do pai. Lúcido até ao fim, o último imperador do império austro-húngaro percebe que vai partir deste mundo Senhor que a tua vontade seja feita."
             Na véspera do dia de Páscoa a 1 de Abril de 1922 aos 34 anos Carlos de Habsburgo fecha os olhos para sempre. Zita, vestida de cor-de-rosa, trocou esta cor pelo preto, que nunca mais largaria nos sessenta e sete anos que sobreviveu ao marido.
             Já nada prendia Zita à ilha da Madeira. E no dia 19 de Maio partiu com os filhos para Espanha, sob a protecção do rei Afonso XIII, cuja mãe, Maria Cristina, era arquiduquesa de Áustria.
             A 31 de Maio de 1922, nasceu a última filha de Zita, a quem deram o nome de Isabel. Zita tinha apenas 30 anos. Viúva e com oito filhos, é agora uma mulher de uma imensa responsabilidade. Só podia contar consigo e com um número restrito de amigos fiéis. A Áustria perdera a guerra. A jovem viúva tinha de ser muito discreta, porque não lhe era permitido viajar e viver como ex-imperatriz, apenas como cidadã austríaca no exílio e sem acesso aos bens pessoais - só mais tarde lhe seriam reconhecidos.
             Zita e os filhos irão viver seis anos na costa basca, na povoação de Lekeitio, na Uribarren, que fora a residência de Verão da ex-rainha Isabel II de Espanha. A casa tinha 30 assoalhadas, distribuídas por três andares. Estavam numa pacata e agradável terra de pescadores.
             A mãe coordenava toda a educação dos filhos. Para treinar as línguas, falavam, às refeições, alemão à segunda-feira, húngaro à terça, francês à quarta, inglês à quinta.., e por aí fora. A casa parecia um colégio. Diversos professores de línguas davam aulas aos meninos e me ninas. Vieram frades de uma abadia húngara, porque Zita era também imperatriz da Hungria. Toda aquela gente se movimentava às suas ordens, pois queria disciplina e empenhamento nos estudos. A família dava muitos passeios e a rainha Maria Cristina de Espanha emprestava o seu motorista, de vez em quando. No Natal, apareciam sempre tias e parentes. Tudo com a maior descrição. Eram momentos em família, de uma felicidade contida.
             Mas era preciso ir viver para outro país, porque os filhos mais velhos estavam em idade de entrar na Universidade. Que país os poderia albergar? Decidiram partir para a Bélgica, onde chegaram em Setembro de 1929. Zita contou sempre com a fidelidade de diversas senhoras das nobrezas austríaca e húngara para a apoiarem na educação dos filhos. A casa real belga foi extremamente amiga e atenciosa com Zita, que tudo fazia para passar despercebida.
             Em Novembro de 1930, Otão completou 18 anos, a maioridade. Agora a águia bicéfala, símbolo do império, passava a re pousar nos seus ombros. Zita sempre acre ditou que o filho seria imperador e preparou-o para esse dia, que nunca chegou.
             Seguiu-se a Segunda Guerra Mundial. Os Habsburgo estavam contra Hitler. A Áustria, anexada à Alemanha, iria sofrer muito. Em 1940, Otão partiu para os EUA. E Zita segue-o, em Julho. Outros filhos já se encontravam do outro lado do Atlântico. Viveram alguns anos no Canadá francês, sob a protecção do bispo do Quebeque. Cinco filhos licenciaram-se em Ciências Políticas, Carlota e Rudolfo em Economia e Félix em Direito.
             No fim da guerra, em 1945, os filhos do último imperador regressaram à Europa. Zita viria mais tarde. Visitava os familiares que não viviam na Áustria e era convidada pelas famílias reais. Sempre se interessou por acompanhar o desenrolar da política mundial. Era uma verdadeira mulher do século XX. Como católica, conheceu vários Papas que a receberam em audiência. Viajou bastante, tendo estado em Portugal em 1967, quando foram trazidas as cinzas da rainha Adelaide de Bragança. Voltou à Madeira em 1968, por ocasião da transladação dos restos mortais do ma rido para um novo sarcófago, e em 1972, no cinquentenário da morte de Carlos de Habsburgo.
             Em 1982, a grande alegria para Zita de Habsburgo: o Governo austríaco permitia-lhe o regresso ao país de que fora imperatriz - sem restrições. Estava finalmente reposta a justiça, após 60 anos! No dia 13 de Novembro de 1982, ao assistir à missa na catedral de Santo Estêvão, uma multidão de cerca de 20 mil pessoas quis ir ver aquela que fora a sua última imperatriz, para a ovacionar. Zita comoveu-se e agradeceu a Deus os "sessenta e três anos de paciência".
             Morreu serenamente a 14 de Março de 1989. Os preparativos das exéquias envolveram grande parte da sociedade civil e fez-se coincidir o funeral com o dia 1 de Abril, aniversário da morte do marido. Foi um funeral de uma verdadeira imperatriz. O Chefe de Estado de então, Kurt Waldheim, fez questão de estar presente. Seis cavalos pretos puxavam o precioso coche encimado com as águias e as coroas imperiais.
             Estiveram presentes descendentes de todas as monarquias europeias e de Marrocos, da Jordânia e do Egipto. Zita teve na morte o tributo de um povo que soube avaliar a vida simples, discreta, de terminada e generosa da sua última imperatriz. Ficou sepultada na igreja dos Capuchinhos. Um dia, como desejam os filhos, o marido repousará a seu lado.

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© 2006 Maria Luísa V. de Paiva Boléo (texto) e Jorge de Freitas (formato). Todos os direitos reservados.