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Louise Weiss (1893-1983)

A avó da nova Europa
Texto de Maria Luísa V. de Paiva Boléo
Desenho de Artur Henriques

A versão inicial deste texto foi publicada na Revista Público Magazine de 9 de Março de 1995. A presente versão, revista pela autora, foi inserida no Portal sem fins lucrativos O Leme, em 1 de Março de 2006.


Jornalista, feminista, escritora e europeísta, viveu até aos noventa anos, o suficiente para ver concretizados alguns dos objectivos por que lutou. A propósito de mais um Dia Internacional da Mulher, a 8 de Março, a história de uma figura ímpar: Louise Weiss.


            A ideia de uns Estados Unidos da Europa partiu, em 1929, de Aristides Briand, jornalista e político francês que, em 1926, recebeu o Prémio Nobel da Paz. Mas só depois do fim da II Guerra Mundial, em 1945, quando se teve consciência da ruína e divisões em que ficara mergulhada a Europa, é que essa ideia criou raízes. Na génese da Comunidade Europeia, além de Winston Churchill, estiveram dois franceses: Jean Monnet (1888-1979) e Robert Schuman (1886-1963). Com menos impacto na opinião pública, mas em pé de igualdade na prossecução do mesmo ideal, esteve uma mulher que não pode ser esquecida: Louise Weiss.
            Para uma mulher acreditar numa Europa unida, é preciso acreditar primeiro numa sociedade igualitária. Essa luta das mulheres contra a milenar misoginia e contra um persistente estatuto de menoridade, imposto pelo poder masculino, tem um historial longo, dramático quantas vezes, mas também triunfante. Foi levada a cabo por grupos de mulheres em quase todo o mundo, mais sistematicamente depois da Revolução Industrial, quando elas entraram de forma significativa no mercado de trabalho. Ao lado de uma nova e imensa massa de trabalhadores, as mulheres tomaram também consciência da sua força social. Com a industrialização como fulcro da economia e o recurso a uma desumana carga horária de trabalho, que não respeitava idades nem sexo, ao fim de anos de submissão, era chegada a hora de reivindicar salário igual para trabalho igual, melhores condições de trabalho, assistência na doença e maternidade e o direito ao voto feminino.
            Mary Ann Walkley morreu aos vinte anos depois de ter trabalhado sem repouso durante 26 horas. Ela e muitas outras mulheres foram sacrificadas nessa luta por direitos elementares. Outras, como Louise Weiss - que teve o privilégio de viver 90 anos - ainda puderam ver o seu combate pela igualdade dar frutos maduros.
            A Europa dos seus 20 anos era muito mais injusta para as mulheres do que a Europa dos anos 70, quando Louise ocupou o lugar de deputada no Parlamento Europeu. Ela terá contribuído como ninguém, no século XX (só se lhe pode comparar Simone Veil), para a dignidade da mulher como cidadã. Durante anos escreveu para alertar as mulheres para as injustiças a que eram sujeitas e encabeçou manifestações exigindo que, no mínimo, tivessem o simples direito de dispor do próprio salário. Depois, o direito de participar na vida política e social do país, votando. Foram anos a percorrer o país em sessões de esclarecimento, tentando angariar apoios por parte dos políticos e informando todas as mulheres do direito que lhes era negado.
            Os ecos das primeiras manifestações femininas reclamando o direito ao sufrágio parecem ainda ecoar aos nossos ouvidos. Foi apenas no século que findou que esse direito, tão justamente reclamado, entrou nas legislações de alguns países: Finlândia 1907; Noruega 1913; Dinamarca 1915; ex-URSS 1917; Alemanha 1918; Grã-Bretanha 1928; França 1944; Portugal, de pleno direito só de pois do 25 de Abril de 1974, com a Constituição de 1976; na Suíça apenas em 1983 (o último reduto foram treze comunas que se opuseram ao voto feminino em questões comunais, embora já houvesse o direito ao voto em questões federais desde 1971).
            Um marco importante na vida da humanidade e particularmente na vida das mulheres foi a Conferência Internacional de Copenhaga, em 1910. A iniciativa da internacionalização do Dia da Mulher partiu da alemã Clara Zetkin (1857-1933) que dirigia desde 1891 o jornal "Die Gleichheit" (A Igualdade). O acerto quanto ao dia exacto, em todo o mundo, não aconteceu logo. Na cidade de Paris, em 1911, um milhão de mulheres de vários países europeus reuniu-se para comemorar o seu dia em 19 de Março. Algumas feministas francesas sugeriram que fosse escolhido para o Dia da Mulher o aniversário da morte desse paladino dos direitos das mulheres que foi Condorcet (1743-1794) – 29 de Março. Na URSS Lenine, em 1921, fixou o 8 de Março como o Dia da Mulher, que foi de início uma comemoração dos países comunistas e socialistas.
            Nas vésperas da I Grande Guerra, alguns países não o comemoraram. Na China, comemorou-se a primeira vez em 1924 e nos países que formaram o então designado bloco de Leste, a partir de 1946. A França comemora-o a 8 de Março desde 1948 e Portugal desde 1975, porque a ‘revolução dos cravos" foi em Abril de 1974.


LENDA E REALIDADE


            A lenda do Dia Internacional da Mulher como tendo surgido na sequência de uma greve de trabalhadoras de uma fábrica de fiação, ou de costureiras de calçado, em 1857 - e que tem sido veiculada por muitos órgãos de informação -, não tem qualquer rigor histórico, embora seja uma história de sacrifício e morte que cai bem como mito.
            Em 1982, duas investigadoras, Liliane Kandel e Françoise Picq, demonstraram que a famosa greve feminina de 1857, que estaria na origem do 8 de Março pura e simplesmente não aconteceu, não vem noticiada nem mencionada em qualquer jornal norte-americano, mas todos os anos milhares de jornais contam a história como sendo verdadeira («Uma mentira constantemente repetida acaba se tornar verdade»).
            Verdade é que em 1909 um grupo de mulheres socialistas norte-americanas se reuniu num "party’, numa jornada pela igualdade dos direitos cívicos, que estabeleceu criar um dia especial para a mulher que nesse ano aconteceu no dia 28 de Fevereiro. Ficou então acordado comemorar-se no último domingo de Fevereiro de cada ano, o que nem sempre foi cumprido. Só em 1960 recomeçou essa tradição como grande acontecimento internacional, desprovido a pouco e pouco da sua origem socialista.
            Desde sempre, foram muitas vezes as mulheres mais cultas, com independência económica as paladinas da luta pela igualdade de oportunidades. Louise Weiss foi uma delas. Em «Memórias de Uma Europeia» conta a reacção das mulheres das vilas e aldeias quando realizava sessões de esclarecimento, por todas as regiões de França, informando o que era o seu combate: "As camponesas ficavam pasmadas quando lhes falava em voto, as operárias riam-se, as comerciantes encolhiam os ombros e as burguesas afastavam-me horrorizadas" Em 1934, a sua voz erguia-se contra a guerra e a favor do sufrágio feminino. "Perante o direito, tanto as minhas concidadãs como eu permanecíamos incapazes e interditas." "É aos pontapés que temos de sair do feminismo de salão, onde ele se mumifica e onde se pavoneiam as ligas ortodoxas de mulheres." A frase é redutora, mas era a visão desta mulher frontal.


QUEM FOI LOUISE WEISS


            Louise Weiss nasceu em Arras, a 25 de Janeiro de 1893, filha de uma família rica que contava na sua árvore genealógica com um prestigiado inventor de lentes e uma mãe que, embora conservadora nas tradições, se não coibira, em 1894, de chamar em público "assassino" a um general anti-Dreyfus.
            Filha de um engenheiro de minas, Louise foi educada num meio republicano, laico, burguês e culto, tendo sido uma das primeiras alunas do liceu Molière, frequentado maioritariamente por rapazes. Os pais tiveram de se render à evidência de terem uma filha muito melhor aluna que os filhos, rapazes. e cedo perceberam que esta não tencionava, de modo algum ser dona de casa e mãe de família. O pai de Louise dizia que não queria ter uma filha "sábia", mas teve de admitir a sua superior inteligência, qualidades de trabalho e precoce consciência política.
            Para fazer a vontade ao pai, Louise frequentou durante um ano uma escola alemã destinada a educar futuras donas de casa, antes de ingressar na Sorbonne. Com apenas 21 anos, já licenciada em Letras, foi convidada para assistente universitária.
            Estava-se nas vésperas da I Grande Guerra (1914-1918). Como muitíssimas outras raparigas, foi enfermeira durante a guerra, facto que a marcou profundamente, como relata nas suas "Memórias". Era trágico ver massacrar e desaparecer amigos e colegas da sua idade.
            Para obter independência económica e poder sair de casa dos pais, Louise estreia-se no jornalismo, aos 22 anos, escrevendo no "Radical", onde assinou como pseudónimo de Louis Lefranc. Em 1918, criou o seu próprio jornal, "L’Europe Nouvelle", que dirigiu até 1984.
            Assistiu, em 1918, à assinatura do Tratado de Versalhes, que pôs fim 1ª Guerra Mundial, com a consciência de que os vencedores se iriam digladiar em breve, como aconteceu. Vai abraçar apaixonadamente a causa dos checos emigrados que se queriam libertar do jugo do império austro-húngaro e apaixona-se pelo checo Stéfanik.
            Como jornalista do "Petit Parisien" faz reportagens pela Europa. Em 1919 está em Praga, segue para Viena e Budapeste e, dois anos depois, visita Moscovo, onde se encontra com Alexandra Kollontai (1872-1952), revolucionária e feminista russa. Critica os bolchevistas e a sua actuação, ao presenciar a fome, a miséria e a incoerência dos dirigentes comunistas.
            Casa com trinta e nove anos "porque a sociedade da época não tolerava mulheres solteiras e sós". O marido era um belo arquitecto e músico de talento, com antepassados franceses e mãe siberiana, que gostava muito da nora, mas Louise Weias depressa percebeu que o marido vivia num mundo imaginário, projectando catedrais, estádios e teatros que nunca ninguém lhe encomendou e, embora Louise reconheça ele a fez "passar agradáveis momentos", acabou por pôr fim à relação. "O divórcio dava-me um estatuto civil que me facilitava a existência e me abria possibilidades sentimentais que sem ter passado por essa etapa eu não teria encontrado. Não paguei por isso um preço demasiado elevado", diria mais tarde.
            Fundou em 1934 La Femme Nouvelle, associação para a igualdade dos direitos cívicos entre franceses e francesas com o fim de obter legislação para que as mulheres tivessem direito ao voto. A inauguração da sua sede foi um acontecimento social, apesar da chuva. Foi a 6 de Outubro de 1934, em plenos Campos Elísios, em Paris. Na montra da frente afixou o mapa do mundo, onde estavam a todos os países em que as mulheres já votavam, acompanhado de uma legenda bem visível: "As americanas votam, as inglesas votam, as alemãs votam, as austríacas votam, as checas, as húngaras, as chinesas votam. As francesas não votam." À França, esse direito só chegará em 1944.
            Quando Léon Blum (1872-1950), fundador com Jean Jaurès do Partido Socialista Francês, assumiu o poder, em 1936, como presidente do conselho de ministros do governo da Frente Popular convidou Louise Weiss para presidir a um dos ministérios. Ela recusou, dizendo: "Não aceito ser nomeada, quero ser eleita. O seu combate não era por um favor político. Desse mesmo ministério viriam a fazer parte três mulheres ligadas a movimentos partidários.
            Louise Weiss convida várias mulheres dirigentes de outras organizações para se unirem na mesma jornada, como Cécile Brunschvicg, Maria Vérona e a sua inseparável amiga Jane Nemo, e começa a contar com apoio material de pequenos subscritores de ambos os sexos que enviam pelo correio donativos para apoiar a sua causa, a causa das mulheres.
            Durante a II Guerra Mundial é secretária do comité de refugiados, desenvolvendo uma intensa actividade, sem nunca deixar de ser jornalista. De 1942 a 1944, dirige o jornal clandestino Nouvelle République.

            São conhecidas as suas acções de rua em prol do voto das mulheres e a sua elegância a vestir-se, que ostentava como arma contra aqueles que confundiam feminismo com desalinho nas roupas e aspecto másculo, como acontecera com algumas sufragistas da primeira geração.
            Para que o feminismo triunfasse, pensava Louise Weiss, era necessário "lançá-lo na arena da actualidade", isto é, envolver em espectáculo as acções públicas de reivindicação pelo voto, para que não passasse despercebido dos meios de comunicação e para chegar ao conhecimento de todos os cidadãos. Invariavelmente, para as suas deslocações eram convocadas equipas que filmavas os comícios e, mais tarde, os passavam nas actualidades dos cinemas.
            Com mais de cinquenta anos, resolveu ‘vagabundear’ pelo mundo, como conta em "Memórias de Uma Europeia", para conhecer como viviam e pensavam as mulheres dos outras continentes. Durante vinte e cinco anos visita o Extremo Oriente, a Ásia Menor, a África, o Alasca, a China, etc., escrevendo e filmando. Fundou em 1970, com Gaston Bouthoul, o Instituto de Polemologia e, nesse ano, em Estrasburgo, criou também o Instituto das Ciências da Paz. Em 1975, é admitida na Academia Francesa. Em 1979, concorreu às eleições europeias e obteve um lugar no Parlamento Europeu em Estrasburgo, no Grupo de Democratas Europeus pelo Progresso, em 7 de Julho, na mesma data em que Simone Veil é eleita presidente desse Parlamento. Helmut Schmidt, então Chanceler, chamou-lhe "A avó da Europa", expressão de que Louise Weiss não gostava nada, mas em que reconhecia a ternura e admiração que todos os europeus conscientes tinham por uma "senhora de idade". Permaneceu no posto de deputada europeia até ao dia da sua morte.
            Começou a escrever as suas extensas memórias em 1968, um total de oito volumes onde recorda, numa escrita tão cativante quanto acessível, toda a sua vida e luta pelos direitos das mulheres e pela unidade europeia.
            Morreu, com 90 anos, a 26 de Maio de 1983, tendo-lhe sido prestada uma homenagem a nível europeu com toda a solenidade. Ficou conhecida como «A decana das feministas europeias" e, com o seu nome, foi criada posteriormente uma fundação que procura seguir e preservar os valores da unidade europeia.


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