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CAROLINA MICHAËLIS DE VASCONCELOS
duas vezes mulher


ESCRITORA, INVESTIGADORA, PROFESSORA E DEDICADA MÃE DE FAMÍLIA.
NOS 111 ANOS DO SEU FALECIMENTO RECORDAMOS ESTA MULHER INVULGAR.


Texto de Maria Luísa V. de Paiva Boléo

A versão inicial deste texto foi publicada na revista Máxima nº 200. A presente versão, revista e actualizada pela autora, foi inserida no portal sem fins lucrativos O Leme em 13 de Abril de 2006.


Carolina Wilhelme Michaëlis de Vasconcelos, uma mulher superior, cujo legado à cultura portuguesa atinge uma dimensão invulgar entre nós, tem uma face talvez ainda mais desconhecida do que o seu contributo intelectual: o lado íntimo e familiar da sua extraordinária vida.


             Carolina nasceu em Berlim, a 15 de Março de 1851. O pai, Gustavo Michaëlis (1813-1895), era professor de Matemática e dedicou-se ao estudo da história da escrita, ortografia e estenografia - em 1 85 1, era professor na Universidade de Berlim, tendo sido chefe dos Serviços Taquigráficos do Parlamento. A mãe, Luise Lobeck (1809- 1863), era originária de Stettin, onde casaram, em Setembro de 1838.
             Carolina, a mais nova de cinco irmãos, perdeu a mãe apenas com 11 anos. Dos sete aos dezasseis anos, estudou na Escola Superior Municipal Feminina de Berlim. Nesse tempo (meados do século XIX), não eram admitidas senhoras nas universidades alemãs. Assim, Carolina Michaëlis teve professores em casa: estudou literatura greco-romana, línguas eslavas, semitas e românicas, onde se integra o português. Também estudou árabe, para poder ler manuscritos no original. Na Universidade de Coimbra, há cadernos de apontamentos seus, escritos nessa língua difícil.
             A sua inteligência e as suas qualidades de trabalho eram notoriamente acima do vulgar Sabendo isso, o seu professor Carlos Goldbeck deu-lhe, aos catorze anos, como trabalho de férias, a tradução do Nuevo Testamento. Carolina, que não dominava o castelhano, perguntou admirada ao professor se não se teria enganado... ao que ele respondeu: "Estude. Estude!" E Carolina estudou, traduziu, fez uma pequena gramática de espanhol e um caderno de significados em francês e italiano.
             Em 1867, com apenas 16 anos, Carolina começou a publicar, em revistas alemãs da especialidade, trabalhos sobre língua e literatura espanhola e italiana, O interesse pelo português chegou depois. Rapidamente Carolina se tornou conhecida no meio dos estudos filológicos da Europa. O eminente professor Gaston Paris escreveu-lhe uma carta em que lhe perguntava:
             "Onde aprendeu aos dezanove anos aquilo que muitos de nós, depois de doze ou quinze anos de trabalho, ainda não conseguiram saber?"
             Em Portugal, Teófilo Braga, Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, repararam na erudição daquela jovem alemã tão interessada pela cultura e literatura portuguesas - e trocaram cartas com ela.
             A sua facilidade para as línguas dá-lhe o reconhecimento oficial para ser tradutora, ainda muito jovem.


De Fausto ao casamento


Em 1872, foi publicada a tradução do Fausto, de Goëthe, feita por António Feliciano de Castilho, que gozava de grande reputação como educador e escritor. O jovem Joaquim de Vasconcellos insurgiu-se contra os erros e a forma menos cuidada de tratar uma obra universal. Estalou a polémica. Uns posicionaram-se a favor do velho escritor e outros, do lado do jovem Vasconcellos. Certo é que saíram à liça escritores como Camilo Castelo Branco, Pinheiro Chagas, Antero de Quental, Adolfo Coelho e muitos outros. Foi tal a repercussão do caso, conhecido por" Questão do Fausto". Carolina Michaëlis, com pouco mais de vinte anos, tomou conhecimento dele e resolveu escrever uma carta a Joaquim de Vasconcelos. Este respondeu. E sucederam-se outras cartas. Joaquim foi diversas vezes a Berlim, onde gostava de se passear com o seu capote alentejano. Depressa descobriram haver, entre ambos, mais do que afinidades pelas coisas da cultura portuguesa.
Em Março de 1876, casaram em Berlim. Depois de uma viagem de núpcias pela Europa, foram viver para o Porto, para a Rua de Cedofeita. Viveram no n° 150 e depois no n° 159, onde a Câmara Municipal mandou colocar uma placa evocativa, recordando que ali viveu a insigne mestra.


O marido


             Foi por um acaso curioso que a alemã Carolina Michaëlis conheceu o português Joaquim António da Fonseca Vasconcelos, nascido no Porto, em 1849. Eram muitos irmãos e, tendo ficado órfão aos quatro anos, em 1859 mandaram-no para Hamburgo, onde estudou Arte, Arqueologia, História da Literatura e Música. Regressou a Portugal e, quando se preparava para voltar à Alemanha, eclodiu a Guerra Franco-Prussiana (1870-71) e permaneceu em Portugal. Viajara pela Europa e o seu trabalho desenvolveu-se nas áreas das artes e da arqueologia, tendo deixado inúmeros estudos pioneiros da História de Arte em Portugal, bem como na área da Música (por exemplo, em 1870, Os Músicos Portugueses com nomes de 400 músicos). Foi professor da Escola de Belas-Artes de Lisboa e deixou uma vasta obra nas áreas da arqueologia, do estudo de monumentos, da ourivesaria e joalharia portuguesas. Os seus desenhos são preciosidades guardadas pelos descendentes.

O filho


             Em Dezembro de 1877, nasceu Carlos Joaquim Michaëlis de Vasconcelos. Este filho único de Carolina estudou na Alemanha, tendo-se formado em engenharia de máquinas.


Águas Santas


             Nas férias e nos fins-de-semana, a família reunia-se na casa de Águas Santas, nas margens do rio Leça e aqui, Carolina com o marido, a nora e os netos. Conviviam no jardim, porque Joaquim e Carolina adora-vam o ar livre, a Natureza e as plantas. Iam regularmente ao Palácio e à mata do Buçaco, tendo mesmo desenhado os trilhos mais acessíveis.


A nora


             Aos vinte e sete anos, Carlos Joaquim casou com uma alemã, de 23, Ana Lina Minna Gertrudes Lautensach, que para a família era simplesmente Lotte. Carolina gostava muito da nora e dos netos (três rapazes). Depois de morrerem os sogros e o marido, Lotte foi viver para Lisboa. Faleceu em 1950, em Águas Santas, o que prova como estava apegada àquela casa de família. O neto, Carlos Joaquim, recorda com saudade "a avó Lotte", que era muito culta e bonita, e como mantinham em família o gosto pelos passeios ao Buçaco e pelos jogos de mímica. Hoje, as mais novas descendentes da grande senhora que foi Carolina Michaëlis de Vasconcelos são três gémeas ainda pequenas. Irá alguma delas ser tão célebre como a tetravó?


Desfazer um equívoco


             Quando se fala de Carolina Michaëlis de Vasconcellos, afirma-se que ela foi a primeira catedrática portuguesa. É certo que foi realmente a primeira mulher a leccionar numa universidade, a Universidade de Coimbra. Porém, convém desfazer um equívoco. A sua craveira intelectual e as suas investigações tinham-na tornado uma das mais eruditas pessoas do seu tempo, mas Carolina Michaëlis foi apenas convidada para leccionar. A primeira catedrática portuguesa foi, e é, a Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, especialista em estudos clássicos, que prestou provas de doutoramento em 1956, na Universidade de Coimbra, e se reformou há escassos anos. Como professora, Carolina era de uma enorme dedicação aos alunos e fazia, várias vezes por semana, a viagem do Porto para Coimbra e regresso, que naquele tempo devia ser bastante incómoda. Aproveitava para preparar as aulas, porque o tempo continuava a ser de ouro!
             Entre os títulos que detinha a das letras os de doutora honoris causa pelas Universidades de Friburgo (1893), Coimbra (1916) e Hamburgo (1923). E o rei D. Carlos concedera-lhe, em 1901, a insígnia de oficial da Ordem de Santiago da Espada. A Academia das Ciências de Lisboa, com a oposição de alguns sócios menos abertos à mudança, admitiu, em 1912, as primeiras duas mulheres como sócias daquela instituição: Carolina Michaëlis de Vasconcelos e Maria Amália Vaz de Carvalho.


Correspondência


             O trabalho de investigação de Carolina Michaëlis levou-a a trocar cartas com inúmeros portugueses e estrangeiros, nas áreas da Literatura, Filologia e Folclore, entre outras disciplinas que estudou. Daí haver, no seu espólio, sobretudo na Biblioteca da Universidade de Coimbra, cartas de nomes grandes da cultura, como os portugueses Eugénio de Castro, Antero de Quental, João de Deus, Henrique Lopes de Mendonça, José Leite de Vasconcelos - um dos mais entusiastas adeptos da entrada das duas senhoras para a Academia -, o Conde de Sabugosa, Braamcamp Freire, Sousa Viterbo, Alexandre Herculano, os médicos e escritores Egas Moniz e Ricardo Jorge, os espanhóis Menéndez y Pelayo e Menéndez Pidal, sem falar das perso-nalidades francesas, inglesas e alemãs.


Trocar a secretária pelo fogão


             Há quem pense que a vida de uma investigadora como Carolina Michaëlis era apenas dedicada aos estudos. Chegava a trabalhar 18 horas por dia, quando ia ler e estudar manuscritos na Real Biblioteca da Ajuda, onde o director foi, até à data da sua morte, o escritor Alexandre Herculano. Mas sabe-se que Carolina conciliava bem a vida de família com a de estudo. Trocava alegremente "o escritório pela cozinha e a secretária pelo fogão". Um seu bisneto, Carlos Joaquim Michaëlis de Vasconcellos, engenheiro como o avô, guardou cuidadosamente diversas receitas de cozinha escritas pela bisavó Carolina, que gostava muito de cozinhar. Na casa de Cedofeita ou na de Águas Santas, Carolina descia à cozinha, pui o avental, ia buscar os ovos, a farinha, o açúcar, as amêndoas e, durante horas, esquecia os seus estudos, preocupando-se apenas com a consistência da massa e a temperatura do forno.


Uma mulher entre sete homens


             O Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas, de que Carolina Michaëlis foi sócia honorária, prestou-lhe homenagem com um número especial da sua revista Alma Feminina, em 1926. Este ano, também os CTT a homenagearam, numa emissão de selos em que está rodeada de sete vultos da cultura portuguesa: o médico e político Miguel Bombarda, o educador e Presidente da 1ª. República Bernardino Machado, o cantor de ópera Tomás Alcaide e os escritores José Régio, José Rodrigues Miguéís, Vitorino Nemésio e Bento de Jesus Caraça.


Bibliografia

Ascendem a cerca de 180 os títulos publicados por Carolina Michaëlis de Vasconcellos, dos quais destacamos:

- Poesias de Sá de Miranda, 1885
- História da Literatura Portuguesa, 1897
- A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas (1521-1577), 1902
- Cancioneiro da Ajuda (2 volumes), 1904
- Dicionário Etimológico das Línguas Hispânicas
- Estudos sobre o Romanceiro Peninsular: Romances Velhos em Portugal
- As Cem Melhores Poesias Líricas da Língua Portuguesa, 1914
- A Saudade Portuguesa, 1914
- Notas Vicentinas: Preliminares de uma Edição Crítica das Obras de Gil Vicente, 1920-1922
- Autos Portugueses de Gil Vicente y dela Escuela Vicentina, 1922
- Mil Provérbios Portugueses

Carolina Michaëlis dirigiu a revista Lusitânia, uma das publicações de maior projecção cultural no nosso país. Dos artigos publicados nos jornais, destacam-se os do Comércio do Porto, sobre o Congresso Feminista de Berlim, e do Primeiro de Janeiro, sobre educação e literatura para crianças.


Agradecimento

A autora agradece as fotografias e os documentos cedidos pelo Eng.º Carlos Joaquim Michaëlis de Vasconcelos, pela Biblioteca da Universidade de Coimbra, através do seu director, Prof. Aníbal Pinto de Castro, e da bibliotecária, Dr.ª Maria da Graça Pericão, bem como à Dr.ª Maria de Lourdes Amorim, investigadora e conferencista.


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