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BEATRIX POTTER

Texto de Maria Luísa V. de Paiva Boléo

A versão inicial deste texto foi publicada na revista Notícias Magazine de 27 de Março de 2005. A presente versão, revista e actualizada pela autora, foi inserida no portal sem fins lucrativos O Leme em 21 de Março de 2006.



Os seus animais são verdadeiros, têm personalidade e alma própria. São coelhos, gatos, patos, raposas, retratados sem paternalismos nem pieguices, criados pela mulher que os tornou protagonistas dos seus livros, a escritora e artista Beatrix Potter, nascida muito antes de Harry Potter ter ocupado a cabeça dos nossos miúdos. Uma mulher que gostava muito mais da natureza do que propriamente de crianças...

COELHOS COM ALMA

Olá, bom-dia, como tens passado?" A Pata Patrícia, no seu andar bamboleante, voltando atrás, respondeu: "Bem, muito obrigada. E tu?" Beatrix Potter deu voz aos seus desenhos inseridos nas histórias por ela inventadas nos cenários que copiava directamente da natureza, da literatura e das vitrinas que podia observar nas visitas assíduas ao Museu de História Natural, bem perto da casa dos pais, em Londres.

Convém desde já dizer que Beatrix Potter não é nem prima, nem tia, nem mesmo bisavó de Harry Potter. Beatrix e Harry têm em comum o apelido, o facto de terem ambos nascido no Reino Unido e serem fenómenos de popularidade entre a juventude. Há, porém, um pormenor importante que os distingue à partida: Harry é um jovem de ficção saído da pena da escritora J. K. Rowling e Beatrix Potter existiu mesmo.


OS DESENHOS DO VERÃO


             Helen Beatrix Potter nasceu no dia 28 de Julho de 1866 em Londres, em Kensington Square, numa família da alta burguesia ligada ao comércio de algodão. Como a mãe também se chamava Helen, a menina passou a ser apenas Beatrix para toda a gente da casa que, naquele tempo em que reinava em Inglaterra a rainha Vitória, tinha muitos criados, uma governanta, jardineiros, cocheiros, etc. Beatrix era uma menina de olhos bem abertos e, desde pequena, começou a observar tudo e todos que a rodeavam, principalmente insectos e animais domésticos que via todos os Verões, quando a família ia passar as férias no campo, ora na Escócia ora em diversas propriedades de Lake District, na Grã-Bretanha. Ai Beatrix podia percorrer livremente os campos verdejantes e ver bem de perto toda aquela imensa paisagem a perder de vista. De tudo o que via e tocava, gostava mais dos coelhinhos, mas as galinhas, os gatos, os patos e mesmo as borboletas, as abelhas ou as libelinhas também a fascinavam, a ponto de ter começado a desenhar, provavelmente antes de saber ler e escrever.
             Quando tinha seis anos, Beatrix ficou muito contente por a mãe lhe ter dado um irmão para quem fez desenhos e com quem brincava.
             Os ingleses guardam religiosamente no Victoria & Albert Museum, em Londres, os mais antigos desenhos de Beatrix Potter, esboçados quando contava apenas nove anos. A pequena Potter desenhava tudo o que via e os seus cadernos têm principalmente esboços e estudos de animais domésticos (onde incluía ouriços e rãs) que ela e o irmão Bertram escondiam em casa. Nas fotografias de Beatrix a que temos acesso, vemo-la acompanhada ora de um dos seus cães, ora com o seu coelhinho predilecto, Peter, que para não saltitar para longe tinha de andar com uma trela.


A PRIMEIRA HISTÓRIA


             A família Potter tinha uma vida social agitada, O pai de Beatrix era apaixonado por fotografia, numa época em que esta ainda era uma novidade, e a mãe era também uma grande apreciadora de pintura. Porém Beatrix foi uma menina solitária, porque praticamente não convivia com ninguém da sua idade. Quando os pais se deram conta de que a filha dedicava tanto tempo ao desenho, proporcionaram-lhe aulas de pintura. Chegou o dia de Bertran ir estudar para um colégio interno e Beatrix ficou de novo só. Refugiou-se na escrita de cartas às suas amigas e amigos, onde se contava o filho dos caseiros da quinta dos pais. Noel Moore tinha cinco anos e por ter apanhado uma febre grave passou muitos meses de cama e as cartas de Beatrix eram a sua melhor distracção. A primeira carta data de 4 de Setembro de 1893 e começava assim:
             "Meu querido Noel, não sei muito bem o que te hei-de escrever, por isso vou contar-te a história de quatro coelhinhos que se chamavam Flopsy, Mopsy, Cottontail e Peter" e seguiam-se os desenhos e o texto. Assim começava uma das histórias preferidas de muitas e muitas crianças do mundo inteiro. Beatrix acabava de criar Peter Rabbit, que anos mais tarde daria origem ao seu primeiro livro.
             No tempo em que Beatrix era pequena, as meninas de famílias abas-tadas eram educadas em casa e quase exclusivamente encaminhadas para o casamento, para terem filhos e serem donas de casa. Mas Beatrix Potter não iria ter esse destino predefinido, porque o seu talento lhe abriu outros horizontes e lhe proporcionou uma vida diferente. Assim, logo que pôde, foi viver para o campo, rodeada de animais domésticos, sobre os quais escrevia histórias e a quem ia pondo nomes. Além de Peter Rabbit, havia Jemima Puddleduck, Jeremy Fisher, Benjamin Bunny, Tom Kitten ou Pigling Bland. Beatrix apanhava-os e coleccionava-os para depois os desenhar com toda a minúcia e paciência. E sabe-se que levava secretamente para o quarto ou para a sala onde tinha aulas, lagartixas, ouriços e uma infinidade de bichinhos mais estranhos, mas que eram para ela mais um modelo para os seus desenhos.


REGISTOS DE BOTÂNICA


             Assim ia crescendo esta menina cheia de talento e imaginação. Mantinha-se em casa dos pais, sem mostrar qualquer inclinação para o casamento. Um tio mais atento, sir Henry Roscoe, notável químico, decidiu mostrar os desenhos da sobrinha, na área da Botânica. Foram pedir a opinião a uma pessoa muito entendida - o director do Royal Botanic Gardens, isto é, o responsável pelos Jardins Botânicos da Casa Real, que acabou por dizer que os desenhos de Beatrix Potter eram de uma amadora e não mostrou qualquer interesse em apoiar uma publicação. Quem diria que, passados anos, os seus desenhos, de tão perfeitos, serviriam para ensinar às crianças a flora e a fauna. Hoje é indiscutível que Beatrix Potter foi uma admirável aguarelista e uma refinada desenhadora de temas da área da Botânica.
             Beatrix Potter viveu entre os séculos XIX e XX e, o novo século trouxe grandes mudanças à sociedade, principalmente às meninas da burguesia e nobreza, porque as mulheres sem privilégios já há muito que trabalhavam de sol a sol nos campos ou em trabalhos pesados nas fábricas das grandes cidades. Em 1882, foi dado um passo importante na legislação inglesa com uma lei que permitia às mulheres casadas administrar os seus bens. Em 1928, depois de décadas de lutas, as inglesas conseguiram o direito de votar e, em 1930, Beatrix Potter foi a primeira mulher eleita presidente da Associação dos Criadores de Carneiros de Herdwick.
             Aos vinte e quatro anos, Beatrix Potter, com o apoio entusiasta do seu amigo Canon Hardwicke Rawnsley, desenhou seis cartões de Boas Festas e mandou-os para uma editora alemã. Com alguma surpresa recebeu a agradável notícia de que a editora não só lhos comprava por um preço muito bom, como lhe encomendava mais.


Aos 24 anos, Beatrix Potter desenhou seis cartões de Boas Festas e mandou-os para uma editora alemã, que não só lhos comprou como ainda encomendou mais. Hoje servem para ensinar botânica aos miúdos.


O SUCESSO DE PETER RABBIT


             Em 1900, Beatrix acabou de escrever um livro para crianças, mas, como é costume acontecer na vida de grandes escritores, as seis editoras a quem enviou o seu manuscrito recusaram-no impiedosamente. Mas a futura escritora estava determinada e como tinha o seu mealheiro bem cheio, decidiu editar ela própria o seu primeiro livro infantil, onde cada página tinha de um lado o texto e do outro uma ilustração.
             Em Dezembro de 1901, apareceram no mercado 250 exemplares do livrinho com o título A História de Peter Rabbit. O sucesso foi considerável e passados três meses Beatrix já mandara fazer mais 250. Em 1902, havia cópias pirateadas nos EUA. Adivinhava-se o enorme sucesso.
             Beatrix Potter tinha então 36 anos e propôs, ao editor que lhe escrevera a carta menos agressiva a dizer não, a publicação a cores, visto que a edição dela era apenas a preto e branco. O editor aceitou com muito agrado.
             Depois deste sucesso modesto, a vida de Beatrix tomou novo rumo. Em nove anos escreveu e ilustrou mais de vinte livros. Aparentemente desinteressada pelo casamento, a verdade é que se suspeita que tencionava casar com o seu grande amigo Norman Warne, o mais novo dos três filhos do seu editor, mas uma doença súbita vitimou-o. A tímida burguesa que era Beatrix acreditou que tinha morrido com ele a esperança de uma vida sentimental... Apesar de desolada com o desgosto, as libras que ganhara com o seu trabalho, e sem a aprovação dos pais, decidiu comprar Hill Top, uma pequena quinta a cerca de duzentos quilómetros a Norte de Londres e, para dar um sentido aos campos, também lá colocou um rebanho de carneiros. Em 1909, adquiriu mais uma propriedade, Castle Farm, ao lado da que já possuía, e foi então que conheceu o notário que lhe iria fazer a escritura, William Heelis, que não só tratou do negócio como impressionou bem a "miss" Potter. Casaram em 1913, quando a escritora tinha já quarenta e sete anos. Os pais não gostaram de ver a filha sair de casa para casar com um notário de província, mas nada a demoveu. Afinal, fazer um casamento feliz e viver no campo sempre fora o seu sonho. Ainda para mais, o marido era igualmente um defensor da preservação da natureza, consciente dos efeitos negativos do avanço da indústria, pelo que não admira que com tanto em comum tenham sido um casal harmonioso.


Beatrlx Potter adorava o campo e os seus desenhos eram inspirados em animais reais, nos ratinhos, esquilos e patas (a célebre Jemina Pudleduck) que viviam na sua quinta.


A RATA MIGALHA E A PATA PATRÍCIA


             Beatrix não teve filhos, mas os seus livros fizeram felizes muitos milhões de crian-ças e essa felicidade acompanhou-a até ao dia 22 de Dezembro de 1943, quando o seu coração parou - o marido sobreviveu-lhe ape-nas dois anos.
             Beatrix Potter morreu há mais de sessenta anos, mas as suas histórias e desenhos tornaram-se obrigatórias e como-vem-nos, como comoveram os nossos pais e avós. E o segredo estará algures no facto de Beatrix Potter não ter afogado os seus "heróis" em mundos de fantasia, dando-lhes uma vida de ser humano. Por exemplo, a Senhora Rata Migalha "tinha uma casa muito engraçada cheia de metros e metros de corredores com o chão de areia", porque é debaixo da terra que os ratinhos vivem, como é nas árvores que vivem os esquilos e assim por diante. E a Pata Jemina (Pata Patrícia, na versão portuguesa), baseada numa história verdadeira, foi quem chocou os ovos de uma galinha, e assim os pintainhos andavam atrás dela... E todos eles se vestem a rigor e com gosto.
             Em 1980 foi criada a Beatríx Potter Society com fins filantrópicos. Os números da indústria que Beatrix Potter gerou são astronómicos e há uma infinidade de produtos com a sua marca. Depois dos livros surgiram os brinquedos, objectos de higiene e escolares, roupa para bebés e crianças, objectos de cerâmica, relógios, mobiliário e um nunca-mais-acabar de coisas bonitas, de que os EUA se tornaram fortes consumidores. São milhões os livros vendidos antes e depois da sua morte, e traduzidos em mais de trinta línguas, entre elas o português. Mas por cá os livros estão hoje praticamente esgotados. Talvez a editora se anime a fazer nova edição, porque as nossas crianças merecem crescer com o talento de Beatrix Potter e não apenas com imagens da televisão.Um livro na mão tem outra sabor e apaixona quem lhe toca. E quantas crianças não dormiram com Peter Rabbit debaixo da almofada.


A história da Pata Patrícia e da Senhora Rata Migalha, assim como os outros dez livros desta colecção foram editados em português pela Verbo, mas já há uns anos estão esgotados. O que é uma pena.



VÁ AO MUNDO DE BEATRIX POTTER


             Parte do espólio de Beatrix Potter foi adquirida, em 1973, pelo Victoria & Albert Museum. Há ainda outro local que lhe é dedicado no National Trust, que é uma organização não governamental de enorme importância no Reino Unido, cujos objectivos são manter intocáveis a beleza das quintas, paisagens e casas antigas. Tem milhões de sócios e o governo em nada pode interferir. Ao National Trust legou Beatrix Potter quatro mil hectares de terra, quinze quintas e numerosos locais de enorme beleza. Durante trinta anos, Beatrix e o marido viveram e cultivaram as suas terras em Lake District. Beatrix criou mesmo uma raça de carneiros salvando-a da extinção e foi premiada por isso.
             Nas próximas férias, porque é que não leva os seus filhos à quinta de Hill Top que está integrada no National Trust, no Reino Unido. Lá estará Peter Rabbit a recebê-los!


A escritora e o marido eram empenhados defensores da protecção da natureza contra os avanços de um mundo industrial que não respeitava nada nem ninguém.


Peter Rabbit

Bee Beatrix Potter Fun! Butterfly


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