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O Leme - Biografias

Elisa, Paulina e Carolina Bonaparte: as irmãs do imperador

Texto de Maria Luísa V. de Paiva Boléo
A versão inicial deste texto foi publicada na revista Máxima, em 2001.
A presente versão, revista pela autora em 22-10-2004, foi Inserida no Portal O Leme em 24-10-2004
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Fotografia de María Rosalía Rita de Castro Fotografia de María Rosalía Rita de Castro Fotografia de María Rosalía Rita de Castro

AS TRÊS IRMÃS DE NAPOLEÃO BONAPARTE, ELISA, PAULINA E CAROLINA
PROTAGONIZARAM HISTÓRIAS BEM TEMPERADAS DE ESCÂNDALO, INTRIGAS, LUXO E AMBIÇÕES



             As três irmãs de Napoleão Bonaparte, Elisa, Paulina e Carolina protagonizaram histórias bem temperadas de escândalo, intrigas, luxo e ambições. Nascidas na Ilha de Córsega, numa família da pequena nobreza, chegariam duquesas e princesas e viveram em maravilhosos palácios, rodeadas do maior luxo, porque o irmão Napoleão, teve a ousadia de lutar contra toda a Europa, vencer inúmeras batalhas e por fim institucionalizar o Império e ser o primeiro imperador dos franceses. O seu reinado durou apenas 10 anos! No exílio Napoleão Bonaparte referiu-se aos irmãos lamentando que só se tivessem aproximado dele para «ganharem favores e dinheiro» e resumia assim a sua opinião : «José seria, em qualquer país uma peça de decoração na sociedade; Luciano ornamento de qualquer assembleia política; Jerónimo amadurecendo, estaria preparado para governar, porque nele descubro muitas potencialidades; Luís teria encontrado simpatias e, em qualquer lugar, poderia subir. Elisa tinha uma inteligência masculina, um ânimo forte, e nas adversidade demonstrava um espírito profundamente filosófico; Paulina, talvez a mais bela mulher do seu tempo, foi e sempre será a mais querida criatura do mundo.» Napoleão não recordou aqui Carolina, casada com o seu general mais destemido – Joaquim Murat . Segundo Madame de Rémusat, Napoleão era muito amigo das irmãs e, como satisfazia-lhes quase todos os desejos.

UMA FAMÍLIA DA CÓRSEGA

             Dos sete irmão que Napoleão Bonaparte teve, elas, foram as preferidas, embora tivesse posto os irmãos nos tronos que ia conquistando, mas ele próprio reconhecia que os irmãos não valiam grande coisa, nem serviram bem o Império. Os nomes originais dos Buonaparte eram de origem genovesa, porque Génova fora a cidade, que desde 1557 tinha jurisdição e poder sobre a Córsega, de onde eram originários. Só em Maio de 1768 o doge de Génova cedeu ao rei de França, Luís XV os direitos sobre aquela ilha. Assim os filhos de Letizia Ramolino e Carlo Maria Buonaparte (Charles Marie) (que tiveram doze filhos, tendo sobrevivido oito) tiveram uma versão italiana e depois uma francesa. Ao mais velho Giuseppe (José 1768-1844, seguiu-se Napoleone (Napoleão 1769-1821), depois Luciano (Lucien 1775-1840), Maria Anunciata que usou o nome de Elisa (1777-1820), Luigi (Luís 1778-1846), Maria Paola ou Paolina (Paulina 1780-1825), Carlotta (Carolina 1782-1839) e Girolamo (Jerónimo (1786-1860). Nasceram todos em Ajaccio, capital da Córsega. Depois viveriam entre França e Itália.

UM DESTINO INIMAGINÁVEL

             A sorte e a fortuna podem bater à porta de qualquer um, e as meninas Bonaparte tiveram o seu quinhão de ambas as coisas.
             Sabemos que o ramo Buonaparte da Córsega era de origem nobre, embora não possuíam grande fortuna, pois o pai de Letícia era apenas Inspector das Pontes e Pavimentos da Ilha, mas Carlo-Maria Buonaparte (1746-1785) bem parecido e de alta estatura, com fama de mulherengo, era um homem com cultura, sabia falar bem francês e estudara Direito na Universidade de Pisa. Era advogado e foi um empenhado defensor da independência da Córsega. Casou, em 1764 com a jovem, Maria Letizia Ramolino, com apenas 14 anos. A partir de 1771 os Buonaparte passaram a escrever o nome com a grafia Bonaparte.
             A mãe, Letizia Ramolino era católica fervorosa. Aos 35 anos está viúva com oito filhos para educar. Valeram-lhe os amigos e parentes. Há quem adiante uma relação antes e depois do casamento com um homem influente da Córsega, mas não se sabe se é verdade. Foi ela quem teve de orientar os estudos dos filhos, que educou como podia. Era uma mulher viva sensata e extremamente económica. Os filhos estudaram em colégios militares, mas as meninas, excepto Elisa, foram um pouco deixadas «à rédea solta.»
             Nos primeiros anos a língua que se falava em casa dos Bonaparte era o italiano. Napoleão só aprendeu francês quando ingressou num colégio militar aos 9 anos. E nunca escreveu nem falou bem nem italiano nem francês. As cartas que escrevia, em campanha eram praticamente indecifráveis. Pudemos adivinhar que as meninas Bonaparte mais novas terão apenas aprendido o mínimo, para se saberem comportar em sociedade. Esperariam, como era vulgar na época, um bom casamento, sem nunca imaginarem que da noite para o dia seriam princesas e grã-duquesas, graças ao irmão imperador.

ELISA


             Elisa Bonaparte (1777-1820) não foi apenas notável por ser irmã do imperador dos franceses. Era uma mulher de temperamento forte e embora ambiciosa mostrou-se muito empreendedora. Aluna do famoso colégio de Saint-Cyr (mais tarde passou a colégio militar), foi criado por Madame de Maintenon, favorita do rei Luís XIV e depois rainha de França. Elisa ali estudou oito anos. Aprender boas maneiras e literatura. Leu muito e adorava o poeta Racine. Segundo os biógrafos da família Bonaparte era ela quem tinha o feitio mais parecido com o do irmão imperador, daí darem-se pouco bem. Era astuta e lasciva. Teve as suas paixões, nomeadamente pelo almirante Truguet, mas uma missão deste à Sardenha afasta-os para sempre. Não foi tão requestada como as irmãs, que eram mais bonitas, mas em 1797 casou com o capitão Felix Bacciochi, um corso, belo e indolente, que viria a ser promovido por Napoleão a chefe de batalhão e depois a senador do império. Elisa não gostava de Ajaccio, cidade pequena demais para as suas aspirações e tudo faz para ir viver para Paris, com uma pensão que o irmão lhe atribuiu. Abriu um salão literário, como faziam as aristocratas e as burguesas ricas da época, onde Elisa recebia os e as famosas de então. Os salões literários eram tantos que as clientelas se dividiam por gostos e afinidades. E quantos escritores, músicos e pintores, vindos da província não foi nesses ambientes que começaram a sua vida intelectual em Paris, como o próprio Balzac. Se muitos destes salões eram local de encontro de intelectuais, artistas e políticos onde se trocavam ideias e se sabiam as últimas novidades, outros havia onde reinava uma alegre convivência e onde se passava mais ou menos discretamente do salão para a alcova.

ASCENSÃO DE NAPOLEÃO

             A vida em França explodiu com a revolução de 1789 e o jovem Napoleão Bonaparte, em Abril de 1791 é promovido a lieutenant en premier. Na primavera de 1792 a França preparava-se para declarar guerra à Europa. Em Junho de 1793 a família Bonaparte está toda instalada em França. Está-se num período de extrema violência nas ruas. Em Outubro de 1793 o capitão Bonaparte é elevado a chefe de batalhão e, em Fevereiro de 1794, é general. Tinha 25 anos. Fez-se nomear primeiro cônsul em 1804 e o Senado nomeou-o imperador. Coroa-se a si próprio, na presença do Papa, que manda vir de Roma, no início de Dezembro de 1804. A seu lado estava a primeira mulher, Josefina de Beauharnais. As cunhadas recusaram-se a segurar na cauda de vários metros de veludo, arminho e ouro da imperatriz, mas Napoleão deu ordens expressas e obrigou-as, apenas condescendeu um pouco, as irmãs e cunhadas apenas tocavam na fímbria do manto e cada uma delas, Elisa, Paulina, Carolina e Júlia (mulher de José) e Hortense (mulher de Luís) tinham direito a usar também uma cauda, que saía dos ombros segura por camareiras. Difícil lidar com estas mulheres!
             A primeira imperatriz dos franceses teve uma enorme influência na vida social de Napoleão e do Império, com o seu gosto requintado e com a postura de uma perfeita imperatriz, embora, como é sabido, não se coibisse de ter os seus amores, enquanto Napoleão andava pelos campos de batalha. Grande parte dos palácios, da decoração dos interiores, dos jardins e, evidentemente das toilettes tinham a marca de Josefina.
             As cunhadas, Elisa, Paulina e Carolina não gostavam dela. Talvez ciúmes!

ESTILO IMPÉRIO


             O estilo «império» foi uma cópia dos trajes do Império romano. Roma e Júlio César tiveram uma enorme influência sobre Napoleão Bonaparte, que no auge da fama se considerava um novo César. Foi também no tempo de Napoleão que se encontraram os vestígios das cidades de Pompeia e Herculano devastadas por uma erupção do Vesúvio no remoto ano de 79 da nossa era. Os frescos pintados nas casas descobertas, mostravam os trajes e penteados das romanas e influenciaram a moda em França e um pouco por toda a Europa. Os penteados apanhados ou cuidadosamente despenteados caindo em finos caracóis sobre a testa, muitas vezes ornados de tiaras, pequenas flores ou fitas de seda ou veludo, os vestidos leves e vaporosos, com a cintura marcada logo abaixo do peito, os sapatinhos de cetim, as capas para sair confeccionados em sedas grossas muito amplas foram os traços marcantes de uma moda extremamente feminina, numa época em que em contraste, os homens passavam a vida em guerras.
             As cores dos vestidos eram preferencialmente pastel. Cores claras, beijes, verdes claríssimos e branco. Este estilo favorecia muito as mulheres, porque lhe fazia sobressair os seis, quer os tivessem mais ou menos volumosos. Os cabelos eram o oposto das cabeleiras volumosas usadas na época anterior à Revolução francesa. E as mais elegantes podiam ser mais sedutoras, porque os tecidos finos lhes moldavam o corpo. Para as grandes ocasiões a linha mantinha-se, mas os tecidos eram mais pesados como veludo e sedas bordadas ornados de galões de ouro. Nas capas peles de arminho ou pequenas penas de aves exóticas. As jóias valorizam um colo bonito e o leque devia sempre descansar numa mão.

JOSEFINA


             O «reinado» de Josefina (Maria Josefa Rosa Tasher de La Pagerie) foi curto, porque o casamento durou apenas de 1796 a 1809, quando Napoleão decide divorcia-se, por ela lhe não lhe ter dado filhos e o imperador querer a todo o custo um herdeiro, como numa monarquia hereditária. Napoleão pensou primeiro em casar-se com uma princesa russa, mas depois da recusa do czar, em 1810 casa com uma verdadeira menina da nobreza, Maria Luísa de Habsburgo (1791-1847), filha do imperador Francisco II, que lhe deu o herdeiro desejado (que morreu com 21 anos) e que viu impávida e serena, o marido imperador ser exilado. Não quis mais saber dele, nem deixou que o filho o fosse ver, alguma vez. Maria Luísa regressou à Áustria e depois passou a viver em Parma. Refez a sua vida e casou mais duas vezes, tendo tido mais filhos. Podemos dizer que de princesa ingénua e recatada se transformou numa verdadeira mulher mundana.

PRINCESAS E RAINHAS DA NOITE PARA O DIA

             Com o período do Império, os irmãos e os generais de confiança de Napoleão Bonaparte vão ser agraciados com títulos e mais do que isso. Júlia mulher de José e Hortense (filha do primeiro casamento de Josefina) mulher de Luís passam rapidamente a rainhas, com direito a serem tratadas por Altezas Imperiais. Hortense foi rainha da Holanda e Júlia rainha de Nápoles e depois de Espanha.
             As irmãs do imperador, Elisa e Carolina não se contentaram com esta discriminação e reclamaram junto do irmão que tratou rapidamente de lhes dar títulos de nobreza. Era só escolher «a la carte» e assinar. Elisa passou a princesa hereditária de Lucques e Piombino (uma cidadezinha italiana com 20 mil habitantes) e mais tarde passou também a grã-duquesa de Toscania, título que usou de 1809 a 1814. Elisa rodeou-se de numerosa corte e começou a construir palácios, que recheava com preciosidades. Nas paredes colocava relógios de Le Roy e nos vastos salões podiam ver-se esculturas de Canova e Bartolini. Fez-se retratar, em mármore como deusa. Para ganhar mais dinheiro abriu mesmo uma sala de jogo, que Napoleão mandou rapidamente encerrar. Esta mulher caprichosa, com a mania das grandezas, acabou por manifestar uma aptidão fantástica como empresária. Contratou engenheiros para abrirem estradas, mandou vir de França bichos da seda para iniciar uma cultura de seda, reorganizou as forças de segurança da sua cidade e até os presos da penitenciária foram obrigados a trabalhar. Meteu-se em inúmeros negócios, entre outros, o monopólio da pesca do atum. Porém onde verdadeiramente fez fortuna foi na exploração do mármore de Carrara. Muitos dos «grandes» do Império ficaram imortalizados nos «seus» mármores. Dava trabalho a escultores e ia facturando para si. Mesmo não sendo particularmente atraente, Elisa teve um número considerável de amantes. E o marido, Bacciochi também se entretinha com as mulheres que o rodeavam. O casal vivia debaixo do mesmo tecto e mostravam o ar feliz socialmente correcto. Ontem como hoje: «O que parece é»!
             Elisa deixou de viver no famoso palácio Pitti e instalou-se no Palácio della Croceta onde tinham vivido os Médici, em Florença. Teve 5 filhos mas apenas sobreviveu uma filha. Foi obrigada a sair do palácio depois de uma incursão dos austríacos nos seus territórios, mas conseguiu negociar com o cunhado Murat e foi viver um tempo em Lucques, rompendo os laços com o império francês. Quando chegou o ocaso do irmão Napoleão Bonaparte, Elisa foi arrastada na queda. O inglês Lord William Bentink expulsa-a e Elisa passa a Génova e daqui a Turim, Chambérry e Montpellier. Só voltará a Itália mais tarde. O todo poderoso ministro austríaco Metternich deixou-a viver pacatamente perto de Bolonha. Acabou em Trieste, então sob o domínio da Áustria. Depois de vender tudo o que tinha foi surpreendida por uma febre e morreu em 1820,aos 43 anos. Herdeira da sua fortuna ficou a filha Napoleona Camerata, nascida em 1806 e particularmente bonita. Casou com 19 anos, teve uma vida atribulada e particularmente infeliz.

CAROLINA BONAPARTE MURAT

             Maria Anunciada, chamada Carolina (1782-1839) casou, em 1800 com um dos mais famosos generais de Napoleão, Joaquim Murat, a quem o imperador concedeu, em 1806, o título de duque de Berg e de Clèves. A amizade entre Murat e Napoleão era tão forte, que consta ser este o único general que podia tratar o imperador por «tu». Murat era forte como um touro e não tinha propriamente as maneiras de um cavalheiro, mas encheu-se de glória nas campanhas militares. Carolina era uma boa administradora dos seus bens e enquanto viveu em Nápoles incentivou as escavações de Pompeia.
             Como reis, Murat e Carolina fizeram vida de estadão com festas principescas. Murat, na sua visão de general, não apoiou o cunhado imperador na Campanha da Rússia, onde pereceu grande parte do exército napoleónico. Depois da derrota de Napoleão, em Waterloo em 1815, Murat foi destronado pelos homens de Fernando IV de Bourbon, senhores de Nápoles antes da investida dos Bonaparte. Ao tentar recuperar o trono é fuzilado. Carolina ficou viúva com 33 anos e mãe de quatro filhos: Napoleão Aquiles, Letícia, Luciano e Luísa todos de apelido Murat e todos usavam o título de príncipes. Carolina não se deixou abater, retirou-se para o castelo de Baimburg, perto de Viena e ali se ocupou da educa dos filhos.
             As irmãs de Napoleão tinham, como ele, a perfeita noção de que tudo lhes era devido. Eram uma nova dinastia de monarcas. Porém a mãe de Napoleão, tratada por «Madame Mère» nunca se integrou na aventura do Império. Amava o filho, mas era contra a instauração do Império e nem esteve presente na coroação, embora o pintor David a tenha colocado na célebre tela. Letícia tinha uma boa pensão, era poupada, tinha sempre dinheiro e foi residir para Roma em 1815, no ano do fim da aventura expansionista do filho. Teve pouca ou nenhuma intervenção na vida política dos filhos, e permanece uma figura misteriosa de quem se disse o melhor e o pior. Por ser discreta desde que o filho foi imperador, merece-me consideração. Se teve ou não amantes antes de ser mãe de um imperador não me parece muito deslocado da época.

PAULINA OU A ENCARNAÇÃO DE VÉNUS

             Como disse o próprio irmão, Napoleão, ela foi «a mais maravilhosa criatura do Império» e a sua vida foi mais agitada que a de uma deusa do Olimpo. A sua beleza um mito. Caprichosa e sensual, amou e deixou-se amar por homens de todas as condições sociais. Foi por muitos considerada ninfomaníaca, mas sabe-se que tinha um coração de ouro. Napoleão tratava-a carinhosamente por Paoletta.
             Paulina nasceu em Outubro de 1780, era mais velha que Carolina, mas optámos por falar dela em último lugar, por ser a mais famosa das irmãs do imperador. Começou cedo a amar. Aos catorze anos, quando a família já vivia em França, mais precisamente em Toulon, apaixonou-se perdidamente por um «pé-rapado» que a quis desposar, mas a mãe Bonaparte proibiu tal casamento e o desgosto de amor acabou por passar. Seguiu-se uma paixoneta pelo general Andoche Junot, dos exércitos do mano Napoleão e bem conhecido dos portugueses. Mas o destino daria a Junot outra mulher, também célebre, Laura Pernot, mais tarde duquesa de Abrantes, que escreveu muito sobre os Bonaparte, o Império e Portugal.
             Aos 17 anos Paulina vivia em Milão com a mãe e a irmã Carolina, onde festejavam as vitórias de Napoleão. Ali conheceu o general Leclerc de 25 anos. De novo Paulina sente um amor ardente e desta vez deixam-na casar. Corria o ano de 1797. Caprichosa e demasiado bela para ser apenas amada por um só homem, Paulina preocupava-se apenas em seduzir e as suas toilettes requintadas, a sua juventude e beleza deixavam os jovens perfeitamente loucos. Todos a queriam nos seus braços e na sua cama.
             Paulina tinha um corpo perfeito, cintura fina, pés e mãos delicados, um cabelo luminoso e um sorriso com dentes admiráveis que deixavam tudo e todos «de rastos». Nos bailes ela era a estrela mais brilhante e os amores sucediam-se. Para afastar Paulina das más-línguas Napoleão incumbiu o general Leclerc de uma missão no Haiti, onde se dera uma revolta de negros. E assim o casal partiu para São Domingos, mas o destino foi-lhe fatal e o general ali morreu, de febre amarela, sem honra nem glória, em Novembro de 1802. Paulina deitou umas lágrimas, mas na travessia de barco para França já tudo tinha esquecido e era a perfeita viúva alegre. O clima deixara-a doente e Paulina tinha os cabelos a cair e as mãos cheias de feridas. Curou-se, mas foi toda a vida doente. Claro que continuou a fazer a vida de sempre. Entre belos oficiais cobertos de glória e de damas de todo o género Paulina era sempre a «deusa». Reservava a manhã para receber os fornecedores que lhe trazem todas aquelas peças a que a tentação não pode resistir: roupa interior, chapéus, tecidos, sapatos (feitos por medida) e joalheiros que se comprometem a realizar para a deusa Paulina uma jóia única. Napoleão tudo pagava e dizia mesmo que os luxos das mulheres da família ajudavam o comércio e a indústria do país e dava trabalho aos operários.
             Paulina era completamente destemperada na sua vida amorosa e não tardou que Napoleão, como quem traça num mapa as movimentações das tropas em campanha, começou a recolher informações para casar a irmã com alguém verdadeiramente rico e nobre, que ao menos salvasse as aparências. A escolha recaiu no príncipe Borghese.
             A belíssima noiva casou então, pela segunda vez, aos 22 anos, num radioso dia de Agosto de 1803, com um dos homens mais ricos e aristocratas de Roma, sobrinho neto do Papa Paulo V. Não era um homem belo, mas era realmente muito rico, da mais antiga nobreza e possuía palácios como só os italianos têm. Paulina era agora uma verdadeira princesa e, gastou a condizer com õ seu novo estatuto. Jóias, vestidos sumptuosos, palácios e, por acréscimo amantes, todos os que lhe podia dar prazer. Porém Paulina não se sentia bem em Roma, onde se aborrecia de morte, embora vivesse no sumptuoso palácio Borghese, recheado de obras de arte e com um arsenal de criados. Tinha saudades de Paris. No entanto foi no palácio, agora também seu, que Paulina passou à imortalidade, quando posou quase nua para o escultor veneziano, ao serviço de Napoleão, Antonio Canova (1757-1822). Paulina foi primorosamente esculpida, numa pose onde repousa como Vénus reclinada, com o torso nu, onde se pode apreciar toda a sua escultural figura.
             Paulina separou-se do marido, que aguentou estoicamente muitas das suas excentricidades. Regressou a Paris, aos salões, aos bailes e ás caçadas. Estava feliz. Amou um músico e quis aprender canto, mas sobreveio a doença e foi repousar para Nice com uma comitiva de princesa, onde não faltava o médico e o padre. Regressou a Paris e rebenta uma nova paixão. Agora era o grandemente famoso actor Talma que a amou com a mesma paixão com que representava paixões no palco. Foi um amor feito de palavras sussurradas. E Paulina dedicou-se à leitura e declamação. Depois passava de outra para outra paixão.
             Mais tarde Paulina e o príncipe de Borghese vão reconciliar-se e voltam a viver juntos, em 1825. Provavelmente devido à vida dissipada e desregrada, a bela Paulina morreu com apenas 45 anos, sem descendência.
             Quando Napoleão foi levado para o exílio, apenas os irmãos Paulina e Luciano fizeram tudo o que estava ao seu alcance para lhe minorarem o sofrimento do exílio. Paulina quis mesmo acompanhá-lo, vendeu as jóias e tentou que os ingleses a deixassem partir com ele. Mas o ex-senhor da Europa iria acabar os seus dias sem qualquer parente por perto.
             Napoleão morreu de cancro de estômago ou, segundo as últimas investigações poderá ter sido envenenado em Maio de 1821. Repousa, desde 1840 no Panteão dos Inválidos, em Paris. As irmãs passaram à posteridade em numerosas peças de arte, que encontramos em França, Itália e colecções privadas. Elisa, Carolina e Paulina deixaram o seu nome impresso no 1º Império francês. Não foram intelectuais como madame Récamier ou madame de Staël, que Napoleão detestava, mas o irmão deu-lhes um pouco de glória.


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